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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

PT sofreu um tombo ainda maior nas eleições municipais no ES

Com Célia e Coser no 2° turno, partido estava entre o céu e o inferno. Com a derrota de ambos, confirma-se um resultado geral desastroso para a sigla no Estado

Publicado em 02/12/2020 às 04h00
Atualizado em 02/12/2020 às 04h01
PT: uma estrela que está perdendo o brilho
PT: uma estrela que está perdendo o brilho. Crédito: Amarildo

É como diz o ditado: nada é tão ruim que não possa piorar. Uma situação que já não era nada fácil para o PT no Espírito Santo torna-se ainda mais difícil agora, após o fiasco que foi o desempenho dos candidatos do partido no Estado, nas eleições municipais de novembro. Numericamente, o saldo geral foi desastroso: em todo o território capixaba, o Partido dos Trabalhadores simplesmente não elegeu nem um prefeito sequer. Fez um vice-prefeito, no modesto município de Águia Branca, e apenas 11 vereadores, contando todas as câmaras municipais.

Vou frisar, para não dar margem a incompreensões: estamos falando do resultado final do partido contando os 78 municípios capixabas, não apenas a Grande Vitória.

No 1º turno, realizado em 15 de novembro, mesmo com o conjunto de resultados muito ruins já colhidos ali, o PT conseguiu pelo menos dois grandes alentos, ou sopros de esperança, com a passagem para o 2º turno de seus dois únicos candidatos a prefeito lançados na Grande Vitória: Célia Tavares em Cariacica e, principalmente, João Coser em Vitória.

A classificação dos dois, ambos em 2º lugar, animou bastante a militância e os simpatizantes do partido no Estado e até fora dele, com manifestações de apoio por parte de algumas celebridades nacionais. E assim, durante 14 dias, até o último domingo (29), o PT no Espírito Santo viu-se numa situação sui generis: duas semanas de “purgatório”, entre o céu e o inferno, podendo ir parar em qualquer uma dessas duas “dimensões”, dependendo do resultado colhido no 2º turno.

Conforme comentamos aqui no dia 17 de novembro, todas as expectativas quanto a um princípio de ressurgimento (ou renascimento) do PT no Espírito Santo passaram a repousar inteiramente sobre os ombros de Coser e de Célia. Da vitória dos dois, ou de pelo menos um dos dois, passou a depender o revigoramento de uma força política, hoje, raquítica no Espírito Santo, não em termos de base social nem de capacidade de mobilização, mas naquilo que mais importa a qualquer partido que se preze: exercício de mandatos eletivos e ocupação de espaços de poder.

Se os dois tivessem sido eleitos, o PT saltaria para o “céu”. Em vez de zero prefeito no Estado, passaria a ter dois, e não em municípios quaisquer, mas em duas cidades metropolitanas, a 3ª e a 4ª mais populosas do Espírito Santo, as quais, juntas, somam cerca de 750 mil habitantes. De quebra, voltaria a comandar a Capital, maior joia da coroa política capixaba.

Se pelo menos um deles tivesse vencido, o partido alcançaria um meio termo: ao menos teria uma chance de recomeço, uma prefeitura importante “para chamar de sua”, em um município estratégico do Estado. Teria espaço para acomodar seus quadros e para implantar suas políticas públicas. Se Célia ou Coser fizessem bons mandatos, poderiam desconstruir um pouco a rejeição ao partido nutrida por amplas parcelas da sociedade capixaba, o que poderia até ter efeito benéfico para outras candidaturas petistas nas eleições seguintes.

Ademais, com Vitória ou com Cariacica, o PT poderia recuperar sua vocação original: lá nos anos 1980, nasceu como um partido metropolitano, enraizado nos centros urbanos. Aos poucos, durante os governos Lula e Dilma, graças ao Bolsa Família e a outras políticas sociais, foi se espalhando pelos rincões do país.

Por fim, se o partido não tivesse êxito nem com Célia nem com Coser, voltaria para o “inferno” e ficaria na mesma: de zero prefeito eleito no Espírito Santo, continuaria com zero prefeito. E foi o que aconteceu.

Tanto Célia em Cariacica como Coser em Vitória tiveram votações respeitáveis, respectivamente, com 41,3% e 41,5% dos votos válidos.

Acrescente-se que ambos fizeram campanhas muito bonitas, propositivas e limpas (em que pese uma ou outra troca de farpas com os respectivos adversários em debates, mas tudo perfeitamente dentro da normalidade). A campanha de Coser em especial, que acompanhei mais de perto, foi muito legal e “para cima”, com direito ao resgate do jingle arrebatador que embalou a sua vitória em 2004, regravado por artistas locais.

Mesmo na derrota, portanto, as campanhas de Coser e de Célia tiveram um grande mérito: o resgate da auto-estima dos militantes e simpatizantes do PT no Espírito Santo, tão combalida nestes últimos seis anos, de “Fora Dilma”, impeachment, descoberta do petrolão, Lava Jato, prisão de Lula e de outros figurões nacionais como Dirceu e Palocci, derrota de Haddad para Bolsonaro em 2018…

Coser e Célia chegaram perto, é verdade. Mas, como diz o poeta mineiro Samuel Rosa, do Skank, “bola na trave não altera o placar”. Do ponto de vista prático, o PT sai desse processo eleitoral como entrou: sem governar nenhuma cidade no Espírito Santo.

Aliás, sai ainda mais “desnutrido politicamente” do que entrou, pois, na eleição municipal passada, fez mais de 30 vereadores pelo Estado (o que já era um número bem tímido para um partido com seu porte e sua história). Agora, fica com míseros 11, sendo apenas dois na Grande Vitória inteira: Karla Coser em Vitória e André Lopes em Cariacica (em 2016, elegera três na região).

E AGORA, PT?

É aquela coisa: se o PT não passar por um urgente processo de renovação, seguirá sofrendo um processo de inanição política no Espírito Santo e alhures. Para isso, vou repetir algo que já afirmei aqui: os petistas mais jovens, com visão mais moderna e com um pouco mais de bom-senso e pragmatismo político, precisam ascender às posições de comando na hierarquia interna do partido e levar o PT, de uma vez por todas, a “desencarnar” do ex-presidente Lula.

Não acredito naquela tese de que o Espírito Santo é um Estado essencialmente “de direita”, “conservador”, contra partidos de esquerda etc. É bom lembrar, em primeiro lugar, que o resultado destas eleições, aqui e no resto do país, também foi desastroso para o presidente Bolsonaro e para o bolsonarismo. Os mesmos eleitores que disseram não ao PT disseram um não igualmente sonoro a representantes do atual presidente da República.

Além disso, vale lembrar que, em 2018, o eleitorado capixaba que teria dado a Presidência para Bolsonaro no 1º turno foi o mesmo que escolheu um governador de centro-esquerda (Casagrande), com uma vice de centro-esquerda (Jaqueline Moraes), além de ter consagrado um candidato de esquerda (Contarato) como o mais votado para o Senado e reelegido um deputado estadual de centro-esquerda (Majeski) como o mais votado para o cargo.

Enfim, o Espírito Santo não é a priori “anti-esquerda”, muito menos bolsonarista. Mas a eleição municipal de 2020 prova, em definitivo, que o Estado consolidou-se, de modo bem mais específico, como um colégio eleitoral antipetista.

E, com semelhantes resultados, fica ainda mais difícil para o partido se reerguer nos próximos anos.

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