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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Casagrande colheu bons frutos das urnas, mas também alguns abacaxis

Em Cachoeiro, Serra, Cariacica e Viana, resultados das urnas foram excelentes para o governo. Em Guarapari e Colatina, poderiam ter sido bem piores. Vila Velha é uma incógnita. E, em Vitória, Palácio sofreu retumbante derrota

Publicado em 03/12/2020 às 10h19
Atualizado em 03/12/2020 às 11h09
Casagrande tem alguns abacaxis para descascar
Casagrande tem alguns abacaxis para descascar. Crédito: Amarildo

Para o governador Renato Casagrande (PSB), o saldo político das eleições municipais encerradas no último domingo (29) é como aquela história do copo preenchido até a metade: dependendo de como se queira vê-lo, pode estar meio cheio ou meio vazio. Não foi ruim para ele, mas poderia ter sido melhor. Ou não foi tão bom para ele, mas poderia ter sido bem pior.

Se Casagrande fosse um jogador de buraco, poderíamos dizer que a sua mão até que veio razoável. Tem algumas boas cartas que se completam, com uma sequência de aliados eleitos em prefeituras estratégicas. Mas, impedindo a formação de uma canastra (sequência de sete cartas), há algumas que “não fecham” e que precisariam ser trocadas ou “descartadas” por ele. Só que ele não pode fazer isso. Quem deu as cartas foi o eleitor. Passemos aos casos concretos, considerando sempre os maiores municípios do Estado:

Em Cachoeiro, Cariacica, Serra e Viana, Casagrande e seu governo conseguiram vitórias incontestes. No caso da primeira, a reeleição de Victor Coelho (PSB), com mais de 50% dos votos, no maior município do sul do Estado, foi não só uma das maiores vitórias para o governo Casagrande como também a maior vitória para o seu partido político.

SERRA

Na Serra, o candidato do PSB, Bruno Lamas, foi mal votado e nem chegou perto de ir para o 2º turno. Mas a vitória do deputado federal Sergio Vidigal (PDT), que teve que suar para isso, é igualmente muito boa para Casagrande, pois o pedetista é um dos principais aliados estratégicos do governador, hoje, no tabuleiro político do Estado.

Aliás, se Casagrande em nenhum momento entrou pessoalmente na campanha de Bruno, foi justamente por não querer melindrar um aliado tão importante como Vidigal, que agora volta ao comando da cidade mais populosa do Estado.

Além disso, para o governador, a vitória de Vidigal foi mil vezes melhor do que teria sido, por exemplo, um triunfo do deputado estadual Vandinho Leite (PSDB), opositor de seu governo na Assembleia, que por pouco não chegou ao 2º turno, ou mesmo de Fabio Duarte (Rede), candidato do prefeito Audifax Barcelos (Rede), que tem projeto próprio de poder, pode lançar-se ao governo do Estado já em 2022 e, com eventual vitória do pupilo, teria se fortalecido ainda mais, mantendo o controle sobre a Prefeitura da Serra.

CARIACICA

Em Cariacica, a vitória eleitoral do deputado estadual Euclério Sampaio (DEM) foi, acima de tudo, uma vitória da cúpula política do Palácio Anchieta. Desde antes da campanha, Euclério contou com o apoio explícito dos dois principais responsáveis pela articulação política do Palácio: o secretário estadual de Governo, Tyago Hoffmann (PSB), e o chefe da Casa Civil, Davi Diniz. Nenhum dos dois tem voto, mas apoio da dupla equivalia a um carimbo do governo Casagrande.

Eventual vitória da petista Célia Tavares no 2º turno contra Euclério não teria sido o pior dos mundos para Casagrande, visto que ele se relaciona bem com os petistas e o PSB se entende bem por aqui com o PT, tanto que a militância do partido do governador foi liberada em Cariacica e apoiou em peso a candidatura de Célia na reta final.

Mas a vitória de Euclério, além de tudo, leva tranquilidade ao Palácio, pois, se tivesse perdido, o deputado governista poderia até se rebelar, gerando dificuldades para o governo, por exemplo, como presidente da Comissão de Finanças da Assembleia Legislativa e relator do orçamento estadual de 2021, a ser votado agora, a toque de caixa, em dezembro.

VIANA

Em Viana, a “chapa governista” ganhou com um pé nas costas e mais de 50% dos votos válidos. Foi a chapa lançada pelo atual prefeito, Gilson Daniel (Podemos), tendo na cabeça o seu braço direito, Wanderson Bueno (Podemos), e, como vice-prefeito, o presidente da Câmara Municipal, Fábio Dias, filiado ao PSB. Gilson Daniel é outro aliado de primeira hora de Casagrande, e a presença de um quadro do PSB na chapa reforçou a união vitoriosa entre prefeito e governador.

COLATINA

Então passamos à seção dos municípios cujo resultado não foi tão bom para o governo Casagrande, mas poderia ter sido bem pior. Um exemplo vem de Colatina: na maior cidade da região Noroeste, a candidata apoiada pelo PSB foi a professora Maricélis (Cidadania), que ficou em 3º lugar, mas era mesmo um azarão.

Nesse contexto, a vitória do ex-prefeito Guerino Balestrassi (PSC) chega a ser uma boa notícia para o Palácio Anchieta. Ex-aliado de Casagrande, Balestrassi foi prefeito de 2001 a 2008 pelo PSB. Depois se aproximou do ex-governador Paulo Hartung, o que causou certa mágoa a Casagrande. Mas, já durante essa última campanha, em uma reaproximação costurada por Tadeu Marino (PSB), os dois voltaram a se falar com frequência.

Além disso, a vitória de Balestrassi é muito melhor, para o Palácio, do que teria sido uma vitória de Luciano Merlo (Patriota), que por pouco não chegou lá. O diretor da Faculdade Castelo Branco tem estreita relação política com o ex-deputado federal Carlos Manato (sem partido), adversário de Casagrande.

GUARAPARI

Em Guarapari, cenário muito parecido. O candidato do PSB foi o ex-vereador Gedson Merízio, que recebeu até vídeo de apoio por parte de Casagrande, mas chegou em 3º lugar.

Muito próximo ao deputado estadual Theodorico Ferraço (DEM), o prefeito Edson Magalhães (PSDB) conseguiu se reeleger. Não é exatamente um aliado de Casagrande, mas, observando-se quem vinha logo atrás, o êxito do prefeito foi até um alento para o Palácio Anchieta: opositor do governo na Assembleia, o deputado Carlos Von (Avante) tem vínculo político com Manato e por pouco não derrotou Magalhães.

VILA VELHA

Finalmente, Vila Velha e Vitória. Na capital histórica do Estado, temos uma situação meio dúbia. É claro que, para Casagrande, teria sido bem melhor a reeleição do prefeito Max Filho (PSDB), com quem o governador se relaciona muito bem. Tanto que o PSB apoiou Max até o final.

A vitória arrasadora de Arnaldinho Borgo (Podemos) é, até um momento, uma incógnita. Na cidade, alguns comentam que o vereador de oposição ferrenha a Max pode ter alguma conexão invisível com o ex-governador Paulo Hartung. E ainda não está muito claro como ele vai se posicionar na prefeitura, do ponto de vista partidário, político e na relação com o governo Casagrande.

Uma nota que tranquiliza o Palácio Anchieta é a presença ostensiva de Gilson Daniel (parceiraço de Casagrande, como já dito) nesse projeto de eleição de Arnaldinho em Vila Velha. Presidente estadual do Podemos, o ainda prefeito de Viana foi o fiador da candidatura do vereador contra tudo e contra todos. Agora, tornou-se o coordenador da equipe de transição de Arnaldinho. À coluna, ele mesmo garante que o prefeito eleito nutrirá excelente relacionamento com o governo Casagrande.

VITÓRIA

Finalmente, chegamos a Vitória. E aqui não há ponderação possível que alivie o peso da derrota sofrida pelo governo Casagrande. Justamente no município mais importante, a capital do Estado, o Palácio Anchieta amargou o seu mais contundente e incontestável revés eleitoral. Perdeu de todas as formas possíveis, com mais de um candidato (e, diga-se de passagem, essa divisão de forças e autofagia não ajudaram em nada).

No 1º turno, o governo Casagrande tinha simpatia por três candidatos: o ex-prefeito João Coser (PT), o vice-prefeito Sérgio Sá (PSB) e o deputado estadual Fabrício Gandini (Cidadania). O primeiro passou para o 2º turno, contra o deputado estadual Lorenzo Pazolini (Republicanos). Casagrande chegou a liberar secretários de Estado a engrossarem a campanha de Coser, e muitos de fato o fizeram (o que era uma forma de o governador estar, sem estar, na campanha do petista).

Mas deu Pazolini na cabeça. E o prefeito eleito não só foi deputado de oposição ao governo na Assembleia, nos últimos anos, como traz com ele um grupo político próprio, que não é o de Renato Casagrande e que tem projeto próprio de ascensão política no Estado. É o grupo hoje incubado no partido Republicanos, do qual também fazem parte Erick Musso, Amaro Neto, Roberto Carneiro e, agora, até Sérgio Meneguelli.

Como primeiro consolo a Casagrande, o deputado Capitão Assumção (Patriota), que pratica oposição bem mais feroz a seu governo que a de Pazolini, foi mal votado em Vitória: “dos males o menor”. Como segundo consolo, o próprio Pazolini, logo após o anúncio do resultado oficial, tem adotado postura institucional e republicana, de pacificação dos ânimos e diálogo com o Palácio Anchieta.

LINHARES

Ah, ainda temos Linhares, com a reeleição de Guerino Zanon (MDB), que assim se credencia até para concorrer ao governo estadual, contra Casagrande, em 2022. Mas convenhamos: ali o que é que dava para fazer?

CONCLUSÃO

Post de Renato Casagrande, descascando um abacaxi
Post de Renato Casagrande, descascando um abacaxi. Crédito: Reprodução Instagram

Em suma, das urnas em novembro, Casagrande até colheu alguns bons frutos, mas também alguns possíveis abacaxis políticos para descascar nos próximos dois anos. Como ele mesmo publicou em suas redes sociais no último domingo (29), de maneira bastante enigmática, essa é a sua especialidade. Terá que exercitá-la, então.

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