Por determinação pessoal do seu presidente nacional, o camaleônico ex-mensaleiro Roberto Jefferson, o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), historicamente um partido de esquerda e atualmente um dos pilares do Centrão no Congresso, agora não só apoia o governo federal de Jair Bolsonaro como virou um partido alinhado à direita bolsonarista.
Ocorre que, no Espírito Santo, o PTB faz parte da base do governo Casagrande. Com o anúncio feito por Jefferson, de que o partido não se coligará com siglas de centro-esquerda nessas eleições municipais (assumindo definitivamente um posicionamento de "sigla de direita" no cenário nacional), como fica a posição do PTB no Estado em relação ao governo Casagrande?
Foi o que perguntamos ao presidente estadual do PTB, o deputado estadual Adilson Espindula – ele mesmo, até hoje, um leal e disciplinado integrante da base de Casagrande na Assembleia, daqueles que invariavelmente votam com o Executivo. Com o cavalo de pau ditado por Jefferson, o partido permanece com certeza na base de Casagrande ou a direção local pode reavaliar esse posicionamento?
A resposta do deputado da Região Serrana indica que, pelo menos a princípio, o partido deve manter um pé em cada lado do muro: intensifica o seu “conservadorismo de direita”, sem pular fora da coalização de Casagrande.
“Vamos caminhar com o posicionamento da Executiva Nacional, o que não altera os trabalhos e os posicionamentos que já vêm sendo realizados pelo partido, que não ocupa espaço em pastas do governo. O PTB permanecerá apoiando todas as iniciativas positivas para a sociedade capixaba e levando ao debate as que entender necessárias de mudanças”, afirma Espindula.
Questionado pela coluna, o deputado define esse “novo PTB” (agremiação que leva o nome do antigo PTB de Leonel Brizola e de João Goulart) como “um partido de centro-direita conservador, que vem realizando o fortalecimento das suas bandeiras ideológicas”.
Traduzindo: de uma hora para a outra (mais certo talvez seja dizer “de uma eleição para a outra”), o PTB, por vontade de seu cacique Roberto Jefferson, passou a ser um partido conservador e de centro-direita, com bandeiras ideológicas correspondentes. Mas isso não quer dizer que devemos esperar uma mudança abrupta no relacionamento do partido com o governo Casagrande. Pelo contrário. A bancada do PTB (ou no caso o próprio Espindula, já que ele é o único deputado estadual da sigla) não pretende sair, no momento, da base que dá sustentação política ao governo Casagrande na Assembleia.
Assim, a heterogênea coalizão do governador “socialista” (estou abusando das aspas, mas são muito cabíveis nesta análise) ganha mais um partido de direita. O “novo PTB” agora se junta ao “novo PSL”, que já está lá desde meados de março.
Só para recordar: sob a "nova direção" do deputado Alexandre Quintino, o PSL na prática ingressou no arco de apoio de Casagrande, muito embora se mantenha como partido de direita – segundo a autodefinição de Quintino, uma “direita moderada”, mas direita de todo modo. O próprio deputado é um fiel aliado casagrandista, além de amigo de longa data do governador.
Com isso, a salada mista que já era a coalizão governista no Espírito Santo ganhou outro ingrediente que acentua o tempero "direitista"; digamos assim, um toque de “trabalhismo de extrema-direita”. Cortesia do chef Jefferson – ou, se preferirem, chefe mesmo, com “e”, na acepção de “chefe tribal”.
APOIO A ASSIS E A ASSUMÇÃO NAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS
Se na relação do PTB com Casagrande nada mudará no curto prazo, no que concerne ao cenário eleitoral imediato, aí sim, podemos esperar grandes e súbitas alterações – as quais, por sinal, já estão em curso. Até a decisão verticalizada de Jefferson, o partido caminhava suavemente rumo à coligação do deputado estadual Fabrício Gandini (Cidadania) na eleição à Prefeitura de Vitória e rumo aos braços do prefeito Max Filho (PSDB) na eleição a prefeito de Vila Velha.
Perguntamos, então, a Adilson Espindula: a Executiva Regional do PTB pode reconsiderar a pré-definição de apoio a Gandini em Vitória e a Max Filho em Vila Velha? Ele responde:
“Sim, o trabalho e o apoio realizados pela Executiva Nacional visam a maior participação do PTB em defesa das nossas bandeiras partidárias nos processos eleitorais de Vitória e Vila Velha, com o lançamento de candidaturas em cargos majoritários.”
Traduzindo: na defesa dessas “novas” bandeiras ideológicas, o PTB agora no Espírito Santo está, sim, revendo a tendência de apoio a Gandini e a Max Filho. O resultado prático disso é que, em Vitória, o partido agora deve se coligar com o Patriota para dar sustentação à candidatura a prefeito do deputado Capitão Assumção, indicando o vice em sua chapa – que deverá ser um militar da ativa da PMES de nome ainda mantido em sigilo.
Já em Cariacica, para participar da eleição majoritária, o PTB lançará candidato próprio à prefeitura: já fechou e anunciou a filiação do subtenente do Corpo de Bombeiros Sérgio de Assis Lopes, que já havia praticamente se decidido a disputar a eleição pelo Patriota (partido bem menor que o PTB e o mesmo onde está Assumção).
O PTB É “O NOVO PSL”
Assis e Assumção disputaram a eleição de 2018 pelo PSL, então partido de Bolsonaro – Assumção a deputado estadual (eleito) e Assis a senador (não eleito).
Situações reais como essa provam que, nas eleições municipais de 2020, o PTB será o “novo PSL”, isto é, o partido na prática tornou-se o novo abrigo eleitoral de candidatos com viés ideológico bolsonarista (extrema-direita tupiniquim).
O outrora partido de Leonel Brizola será, nessa eleição, o que foi o PSL em 2018, abrigando com sua legenda (vejam bem: com a legenda trabalhista) os pré-candidatos que saíram praticamente corridos do PSL em março no Espírito Santo para manterem-se vivos eleitoralmente, quando o partido no Estado foi entregue pelo presidente nacional, Luciano Bivar, às mãos do moderado casagrandista Coronel Alexandre Quintino, deputado estadual que de bolsonarista nada tem.
PRESIDENTE DO PTB EM VITÓRIA ESTAVA NO GOVERNO CASAGRANDE
A situação toda carrega um quê de esquizofrenia. O presidente estadual do PTB, Adilson Espindula, faz questão de ressalvar que o PTB “não coupa espaço em pastas [secretarias] do governo”, mas há controvérsias. O próprio presidente do PTB em Vitória, Anderson Goggi, ocupou cargo comissionado no governo Casagrande até bem pouco tempo atrás. Logo no primeiro dia do atual governo, foi nomeado para o cargo de assessor especial da Secretaria da Casa Civil (a cozinha política do Palácio Anchieta). Nele permaneceu até 24 de junho deste ano.
Ou seja: O PTB é presidido em Vitória por Anderson Goggi, ex-assessor do governo Casagrande em cargo de indicação política. E o mesmo Goggi agora, praticamente forçado por determinação nacional, tirará o apoio do partido de Fabrício Gandini (um aliado do Palácio Anchieta) para o entregar a Capitão Assumção, que faz oposição ferrenha ao mesmo governo onde estava lotado o dirigente até cerca de dois meses atrás.