Do ponto de vista pragmático, a aliança de Lorenzo Pazolini
com o PL faz total sentido. E vamos deixar claro do que estamos falando: no
Espírito Santo, fazer uma “aliança com o PL” significa trocar alianças no
cartório eleitoral com Magno Malta; esposar politicamente o senador, aceitando
os termos do acordo pré-nupcial.
Tudo o que esse matrimônio aporta à campanha de Pazolini já foi extensamente detalhado aqui.
O PL traz seu tempo de rádio e TV, traz toda a militância bolsonarista, traz recursos de campanha (mais ainda com uma vice mulher), proporciona a Pazolini a colagem em Flávio Bolsonaro, candidato com chances reais de virar presidente da República (e em viés de recuperação atestado pelas mais recentes pesquisas).
Mas, por mais importante que seja o PL, cumpre perguntar se
Pazolini, ao menos na “pré-campanha”, não teria exagerado na aproximação com
Magno, se não teria se curvado demais ao senador e “magnetizando” em excesso o
seu palanque...
Magno tem um eleitorado fiel, mas a rejeição a ele fora de sua bolha é considerável.
Ao aceitar a Bispa Eliane Leal (PL) como vice, Pazolini deu
mais um passo largo em direção a um polo mais radical... o de Magno, como este
sempre quis. Creio ser uma faca de dois gumes. Já estava lá ninguém menos que
Maguinha Malta. A presença da filha do senador já não era o suficiente para dar,
literalmente, a cara de Magno ao palanque?
Além disso, há toda a questão do discurso. Como candidato a deputado
ou prefeito, Pazolini nunca se escorou na muleta da radicalização ideológica, tampouco
adotou uma estratégia de disputa ideológica, muito menos partiu para um discurso
de enfrentamento ideológico. Ao contrário, sempre procurou fugir da armadilha
da polarização entre extremos.
Para citarmos algo elementar, o candidato do Republicanos jamais
priorizou a agenda de costumes tão cara ao “bolsonarismo raiz” nem fez uso
exacerbado da retórica de cunho religioso, misturando ideologia política com a
fé das pessoas (“direita versus
esquerda” concebida como uma “batalha espiritual”, respectivamente, do “bem
contra o mal”).
Ora, pergunto aos leitores, e o que representa Magno senão exatamente tudo isso? E, onde se lê Magno, leia-se Maguinha, leia-se Bispa Eliane... Ao estilo de Michelle Bolsonaro e Damares Alves, Maguinha já falou em “luta espiritual”, com Pazolini bem ao lado, na convenção do PL e no evento com Flávio Bolsonaro realizado em Vitória no dia 18 de julho.
No mesmo evento, Magno falou literalmente em “extirpar a esquerda ad eternum”. Isso mesmo: acabar com a esquerda para sempre. A antítese da ideia de democracia, tolerância e convivência política, difundida por alguém que, por tantos anos, apoiou governos de esquerda.
Todo evento do PL, onde Pazolini não é anfitrião, mas
convidado de honra, invariavelmente se transforma em um culto eleitoral com
doses generosas de fanatismo político-religioso.
Enveredar ainda mais por essa trilha pode ser uma cilada para
o ex-prefeito.
E “essa trilha” inclui a ala mais radical do próprio
Republicanos, cuja proximidade também pode ser uma armadilha para ele.
No fim de julho, num evento em Vitória que mobilizou
mulheres cristãs, o deputado Alcântaro Filho, candidato à reeleição pelo
partido de Pazolini, disse, literalmente, que cristãos de verdade não votam na
esquerda, pois esta, segundo ele, é “a sinagoga de satanás”. Fundamentalismo na
veia.
Ao lado de Alcântaro, no trio elétrico, estavam Maguinha e a Bispa Eliane (agora vice na chapa de Pazolini), além de três mulheres que chegaram a ser cotadas para a vice: Adriana Boas e Bruna Soares, candidatas a deputada federal pelo Republicanos, e a Enfermeira Laryssa, candidata a deputada estadual pelo PL.
Na última pesquisa Quaest sobre a corrida presidencial, um
em cada quatro entrevistados evangélicos disse votar em Lula (PT). Entre os brasileiros
católicos – tão cristãos quanto qualquer evangélico –, o atual presidente
venceria, hoje, com margem de votos confortável: segundo a mesma Quaest, o
candidato de esquerda tem a preferência de 47% daqueles que professam o
catolicismo, contra 27% de Flávio Bolsonaro.
Além de show de intolerância em estado puro, a fala do deputado
republicano é, evidentemente, uma ofensa a todos os cristãos que têm uma
posição política, partidária e eleitoral diferente da que ele propala... E é
difícil, muito difícil, imaginar Pazolini, o candidato que prega “paz e
igualdade”, corroborando esse tipo de discurso... Mas lá estão aliados e aliadas
dele, incluindo sua candidata a vice, no trio elétrico em que tal segregação
foi propagada: “sinagoga de satanás”...
Outra boa amostra do campo minado que é essa aliança nos foi fornecida na convenção do PL.
Com Pazolini bem ao lado na mesa de honra, Magno
chamou as vacinas contra a covid-19 literalmente por termos como “desgraça” e
“essa m****”, voltando a vociferar (a esta altura dos acontecimentos) contra o
único produto do engenho humano que foi comprovadamente capaz de conter as
taxas de contágio no auge da desesperadora pandemia do novo coronavírus,
poupando milhões de vidas aqui e no mundo inteiro.
Como prefeito, acertadamente, Pazolini disponibilizou a
vacina na rede pública de saúde de Vitória, e a prefeitura fez campanhas
massivas de vacinação.
E agora, Lorenzo?
Na oratória de Magno, tudo quase sempre vem embebido em
ideologia extremista.
Qual o peso que Magno, com sua filha, sua discípula e seu
discurso rodeando Pazolini, terá na campanha a governador do ex-prefeito de
Vitória?
Para alguns aliados do ex-prefeito, tamanha proximidade de
Pazolini com Magno e as “magnéticas” tem data de validade (já expirada). Teria
vencido no último sábado (15), com o fim da pré-campanha, período de acumulação
de forças político-partidárias, até o tiro de largada oficial.
Pazolini já conseguiu o que queria: o PL e Bolsonaro estão
com ele – por extensão, os bolsonaristas.
Iniciado oficialmente o período oficial de campanha, no
último domingo (16), alguns interlocutores do ex-prefeito apostam que ele gradativamente
se descolará de Magno e de toda essa pirotecnia ideológica, concentrando-se no
que realmente importa para ele, sua campanha e os cidadãos capixabas: o estado
do Espírito Santo e as questões sociais, econômicas etc. afetas ao dia a dia da
nossa população.
Minha aposta vai na mesma direção.
Sabidamente muito mais pragmático e moderado, Pazolini
deverá afastar-se de Magno e ser o protagonista exclusivo da própria campanha.
Acredito que, no 1º turno, dará muito, mas muito pouco
espaço para Magno, Maguinha e até para sua própria vice, por exemplo, no
horário eleitoral gratuito e nos principais atos de campanha.
Como tem feito desde o início do ano passado, deve rodar
muito com Erick Musso e Evair de Melo (este, sim, seu candidato pessoal ao
Senado), principalmente pelo interior.
E acredito que, pelo menos nas primeiras semanas, deverá reduzir
ao mínimo esse discurso de viés ideológico, guardando-o para usá-lo só “em caso
de extrema necessidade” (sim, com trocadilho).
A equipe de comunicação da campanha poderá até produzir
conteúdo customizado, produzido sob medida para “alimentar” os dragões da
extrema-direita, direcionado especificamente para grupos de Whatsapp e esse
tipo de coisa. Mas ele mesmo, pessoalmente, no grande palco da campanha... acho
muito difícil.
Como disse acima, “enveredar ainda mais por essa trilha pode
ser uma cilada para o ex-prefeito”. Uma vez aberta essa vereda, acredito que
ele não se embrenhará muito mais por dentro dela.
Mas a vereda foi aberta.
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