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Peças em movimento

Amaro na Serra força Neucimar a ser candidato a prefeito de Vila Velha

Sendo candidato a  prefeito da Serra, Amaro pode dificultar a vitória de Sérgio Vidigal, com a qual Neucimar contava para retornar à Câmara como suplente. Para não se arriscar a ficar sem nada, ex-prefeito é empurrado para disputa em Vila Velha

Publicado em 14 de Abril de 2020 às 05:00

Públicado em 

14 abr 2020 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Amaro, com sua entrada na eleição da Serra, empurra Neucimar a entrar de uma vez por todas na disputa em Vila Velha
Amaro, com sua entrada na eleição da Serra, empurra Neucimar a entrar de uma vez por todas na disputa em Vila Velha Crédito: Amarildo
Como uma tacada de bilhar que espalha as bolas pela mesa, a transferência do domicílio eleitoral de Amaro Neto (Republicanos) de Vitória para a Serra mudou bastante o ordenamento do jogo eleitoral não só no município hoje administrado pelo prefeito Audifax Barcelos (Rede), mas em toda a Grande Vitória. Uma das consequências mais indiretas, porém mais certas, do movimento de Amaro diz respeito à eleição em Vila Velha: a decisão do deputado federal praticamente não deixa escolha ao ex-prefeito Neucimar Fraga (PSD) a não ser enfrentar novamente nas urnas o atual prefeito, Max Filho (PSDB).
Mas o que a candidatura de Neucimar tem a ver com a mudança de Amaro Neto para a Serra? A resposta começa pelo resultado da eleição passada, de 2018, na qual o ex-prefeito concorreu, sem sucesso, a uma cadeira de deputado federal, na coligação que, além do PSD – presidido por ele no Espírito Santo –, reunia PDT, DEM, PSDB, PRP e Solidariedade.
Essa coligação elegeu dois deputados: Sérgio Vidigal Norma Ayub – respectivamente, presidentes estaduais do PDT e do DEM. Com 53.822 votos, Neucimar ficou na 1ª suplência dessa coligação. Assim, para “pegar” uma vaga na Câmara, o ex-prefeito (e também ex-deputado federal) precisa que ou Norma ou Vidigal, um dos dois, abandone o atual mandato.
Qual é, para Neucimar, a oportunidade mais plausível de que isso aconteça? Resposta: a eleição municipal de outubro, em que Vidigal e Norma são, respectivamente, pré-candidatos a prefeito da Serra e a prefeita de Marataízes. Basta que um deles se torne prefeito que Neucimar ascende à Câmara em janeiro de 2021. Simples? Nem tanto. E o que antes já não era assim tão simples pode agora ficar ainda mais difícil, devido ao deslocamento de Amaro Neto.
A provável candidatura de Amaro na Serra pode tornar mais complicado o retorno de Vidigal à prefeitura. Até então, com Amaro em Vitória, a tendência era que o ex-prefeito largasse na corrida eleitoral da Serra como favorito absoluto, por ser disparadamente o pré-candidato com recall político mais alto – o mais lembrado espontaneamente pelos eleitores.
Mas, caso se confirme a candidatura de Amaro, isso já não deve ser assim. O apresentador de TV também largará com recall bem elevado – sempre bom lembrar: mais por causa dos seus muitos anos de TV do que pelos cinco anos de atuação parlamentar. Muito popular especialmente nas classes D e E, o deputado federal do Republicanos pode abocanhar votos de Vidigal em estratos sociais onde o pedetista costuma atropelar. Na verdade, isso já ocorreu há dois anos.
Na eleição a deputado federal em 2018, Vidigal foi o candidato a deputado federal mais votado na Serra (46.504 sufrágios, o equivalente a 22,1% dos votos válidos no município).
Mas, mesmo com três mandatos de prefeito na cidade, o pedetista foi seguido de perto por Amaro, que teve 37.907 votos dos serranos, 18% dos válidos. O 3º colocado passou longe: o vereador Guto Lorenzoni (Rede), com 13.419 votos (6,4% dos válidos).

18% dos votos válidos

Foi o percentual obtido por Amaro Neto na eleição a deputado federal, entre os eleitores da Serra, em 2018. Vidigal obteve 22%.
Já em Marataízes, as informações de bastidores dão conta de que Norma Ayub, se for mesmo candidata, não deve ter uma eleição tão fácil pela frente.
Assim, se ficar parado, sem disputar a Prefeitura de Vila Velha, apenas esperando cair do céu uma vaga incerta de deputado federal, Neucimar corre o risco de mais uma vez ficar sem nada. E esse é um risco que o ex-prefeito não pode assumir a esta altura de sua trajetória política, meteórica nos primeiros anos, mas estacionada há muito tempo.
Neucimar perdeu as últimas quatro eleições que disputou (para cargos diversos) e não exerce cargo eletivo desde 2012, quando encerrou seu mandato único à frente do Executivo de Vila Velha. E não está ficando mais jovem: em junho, completa 54 anos. Se não assumir um mandato em 2021, continuará na planície por mais um par de anos, pelo menos, completando uma década sem cargo eletivo.
Como o próprio Neucimar costuma dizer, é melhor segurar uma vela que ficar no escuro. E a vela para ele, no momento, parece ser mesmo a Prefeitura de Vila Velha. Mesmo que não vença, a participação do ex-prefeito nessa disputa pode ser fundamental para ele até para que se mantenha vivo na memória do eleitor canela-verde.
Se ele não figurar no páreo e não conseguir voltar para a Câmara Federal, serão quatro anos entre a eleição de 2018, a última disputada por ele, e a próxima, em 2022. Como reza a máxima, “o eleitor tem memória curta”.
Para ser justo com Neucimar, ele já vinha sinalizando sua pré-candidatura a prefeito antes mesmo da entrada de Amaro Neto no jogo eleitoral da Serra. O ex-prefeito chegou a marcar um evento do PSD, na 2ª quinzena de março, para pré-lançamento da sua candidatura. Foi adiado por causa da pandemia do coronavírus.
No entanto, até então, a pré-candidatura de Neucimar era vista até como uma forma de ele se valorizar na negociação de alianças entre os pré-candidatos da cidade na reta final (de julho para agosto). Ainda se via como muito possível uma composição, na hora H, do ex-prefeito com outro candidato, como o deputado estadual Hércules Silveira (MDB).
Agora, com a mudança de Amaro de Vitória para a Serra, jogando pressão sobre Vidigal, a candidatura de Neucimar se torna quase impositiva para ele mesmo. Questão de sobrevivência política.
Se até então Neucimar estava com um pé só na água, sentindo a temperatura, agora Amaro empurrou-o de cabeça na piscina. Só resta ao ex-prefeito nadar para não se afogar.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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