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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Neucimar aposta no voto popular para voltar a ser prefeito de Vila Velha

Ex-prefeito destaca o vácuo de candidatos com origem humilde e inserção em bairros mais pobres da cidade. Tirando ele, todos os pré-candidatos (Max, Hércules, Arnaldinho etc.) estão concentrados na Região 1

Publicado em 11/02/2020 às 08h00
Atualizado em 11/02/2020 às 11h11
Neucimar traça seu mapa eleitoral na cidade. Crédito: Amarildo
Neucimar traça seu mapa eleitoral na cidade. Crédito: Amarildo

Neucimar Fraga (PSD) se diz animado para concorrer novamente à Prefeitura de Vila Velha. O ex-prefeito encontra motivação em um fator que tem passado meio despercebido, mas que, em teoria, pode ser bastante favorável a uma nova investida dele nas urnas vila-velhenses: o “mapa político-eleitoral” da cidade. Neucimar chama atenção, especificamente, para o “corte geográfico” do conjunto de concorrentes estabelecidos no município: tirando ele, todos os pré-candidatos apresentados até agora têm raízes na Região 1 da cidade (a que reúne os bairros de maior renda média: Itapoã, Itaparica, Praia da Costa, Centro, Prainha etc.).

Atento a esse vácuo de candidaturas em outras regiões, Neucimar planeja se vender como “candidato do povo”, apostando em sua densidade eleitoral justamente nos bairros mais populares da cidade, já testada e comprovada em eleições passadas.

De fato, começando por Max Filho (PSDB) – criado no Centro e na Prainha e hoje morador da Praia da Costa –, todos estão fixados nessa área mais rica da cidade, onde se concentra o eleitorado das classes sociais A e B. Os deputados estaduais Hércules Silveira (MDB) e Danilo Bahiense (PSL) são vizinhos em um condomínio de frente para o mar em Itapoã; colega dos dois primeiros na Assembleia, Rafael Favatto (Patriota) mora e trabalha em Itaparica; com raízes na Região 3 (São Torquato e adjacências), o também deputado Hudson Leal (Republicanos) tem residência na Praia da Costa, assim como o vereador licenciado Ricardo Chiabai (Cidadania), atual subsecretário estadual de Mobilidade Urbana, e o pré-candidato pelo Novo, Dalton Morais, professor da Faesa e procurador federal da AGU.

Há, portanto, visivelmente, uma superpopulação de candidatos dessa mesma parte da cidade na linha de largada da corrida. É lógico que a origem e o endereço de um candidato não necessariamente guardam relação direta com seu desempenho eleitoral – nada impede que um candidato de determinada região seja bem votado na cidade inteira –, mas Neucimar acredita que, enquanto os potenciais adversários se engalfinharão por fatias do mesmo eleitorado, dividindo os votos no mesmo reduto, ele pode pôr seu bloco nas ruas (descalçadas ou de paralelepípedos) dos bairros de renda mais baixa e desfilar sozinho por elas.

Faz sentido. Até porque, de fato, nas últimas eleições disputadas por Neucimar em Vila Velha, ficou patente que sua performance é muito melhor junto aos segmentos de menor poder aquisitivo, enquanto nos bairros de classe média alta ele enfrenta os seus maiores índices de rejeição.

A título de exemplo, em 31 de outubro de 2016, um dia após o 2º turno da eleição passada a prefeito de Vila Velha, o jornal A Gazeta estampou: “Max vence na praia”. Na linha fina da matéria: “Classe média de Vila Velha deu a vitória ao candidato tucano”.

Conforme ilustrou o infográfico publicado com o texto, enquanto Max Filho levou a melhor em 40 bairros da cidade, Neucimar venceu em 15 (na verdade, 17), todos eles de classe média baixa e situados nas regiões 2 (Darly Santos, Guaranhuns, Jardim Guaranhuns e Vila Guaranhuns), 3 (Santa Rita), 4 (Alvorada, Jardim Marilândia, Rio Marinho e Vale Encantado) e, sobretudo, na Região 5, a Grande Terra Vermelha, onde Neucimar derrotou Max com folga, vencendo em bairros como Barramares, Morada da Barra, Terra Vermelha e Ulysses Guimarães.

O mapa da votação em Vila velha em 2016: azul para Max, laranja para Neucimar. Crédito: A Gazeta (31/10/2016)
O mapa da votação em Vila velha em 2016: azul para Max, laranja para Neucimar. Crédito: A Gazeta (31/10/2016)

Max, por sua vez, venceu em bairros de todas as cinco regiões, mas foi justamente na Região 1 (a sua) que ele não deu chance alguma a Neucimar, derrotando o oponente de goleada e decretando ali a sua vitória. Bom lembrar que a Região 1 é bastante populosa e formou uma espécie de cordão de isolamento, praticamente intransponível, para Neucimar. Por isso, ele vai investir nos eleitores com outro perfil sociodemográfico.

EX-COBRADOR, EX-AMBULANTE, EX-JORNALEIRO…

Vender-se como pré-candidato com origem humilde e que entende a língua do povão não é uma novidade na trajetória de Neucimar. Nascido em Itanhém (BA), ele realmente teve berço humilde. Começou a ascender socialmente como microempreendedor informal. Na vida pública, apareceu como líder comunitário do tradicional bairro Soteco (tecnicamente, Região 1, assim como a bem mais rica Praia da Costa), até que se elegeu vereador, então apadrinhado por Magno Malta.

Em todas as eleições que cobri disputadas por Neucimar, desde 2008, não houve uma em que ele não repetisse o mantra de que fez um pouco de tudo, profissionalmente, na juventude: ambulante, vendedor de jornais, cobrador de ônibus e por aí vai… Foi marcante o episódio em que o então deputado federal, com raciocínio rápido, afirmou que Dyonizio Ruy Júnior, candidato de Max Filho em 2008, ficaria a jogar frescobol na Praia da Costa, enquanto ele percorria e conhecia a cidade inteira. Isso em um debate realizado na Rede Gazeta. Jogar frescobol, seja onde for, nunca foi crime em lugar algum do mundo. Mas foi exatamente um exemplo da estratégia de Neucimar de se afirmar como “homem do povo”.

Desconte-se, é óbvio, o fato de que aquele Neucimar líder comunitário ficou no passado há muito tempo. Há muitos anos – já na sua eleição em 2008, para ser franco –, Neucimar vive em um bonito prédio de frente para o mar de Itaparica. Desde que encerrou seu governo, em 2012, foi sócio de uma empresa no ramo imobiliário e, atualmente, é um dos proprietários de uma companhia especializada em instalação de equipamentos para captação de energia solar.

Além disso, resta uma grande questão ainda sem resposta (só pesquisas poderão dizer): a popularidade de Neucimar não pode ser subestimada, mas, após quatro derrotas sucessivas nas urnas para diversos cargos, até que ponto persiste a força eleitoral do ex-prefeito mesmo nessas camadas do eleitorado?

A PERDA DE TAMANHO

Na eleição de 2018, na qual tentou uma cadeira de deputado federal, as urnas foram duras com Neucimar. Assim como praticamente todos os políticos considerados “tradicionais”, ele perdeu muito tamanho. No último pleito, teve 53.822 votos. Em 2006, quando elegeu-se para o segundo mandato na Câmara, obteve 71.474.

O FATOR AMARO NETO 

É preciso ponderar, porém, que boa parte desse encolhimento de Neucimar pode ser atribuído à hipertrofia de Amaro Neto (Republicanos), que obteve mais de 180 mil votos para o mesmo cargo e passou nas urnas roubando eleitores principalmente de candidatos com o perfil do próprio Neucimar, mais fortes nos estratos sociais onde Amaro é mais popular. O apresentador de TV foi o mais votado em Vila Velha, com 32.153 votos, deixando Neucimar em 2º, com 29.032.

MAX DE OLHO NA REGIÃO 5

O financiamento do Fonplata, recém-assinado por Max Filho com o presidente do fundo de fomento, com recursos que devem começar a pingar no caixa da prefeitura este ano, contemplará intervenções urbanísticas principalmente na Região 5 de Vila Velha – aquela onde Neucimar é mais forte.

PSD NO GOVERNO CASAGRANDE

Querendo se reposicionar no jogo eleitoral e aumentar as próprias chances, Neucimar, presidente estadual do PSD, levou o partido oficialmente para a base do governo Casagrande.

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