ASSINE
Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Amaro troca Vitória pela Serra para ser o candidato de Audifax

O prefeito ganha. Amaro também. Vidigal, Vandinho e Bruno Lamas perdem muito. Entenda, em cinco pontos, as consequências de uma agora muito provável candidatura de Amaro a prefeito da Serra

Publicado em 01/04/2020 às 05h02
Amaro transferiu seu título eleitoral de Vitória para a Serra. Só poderá votar e ser votado nomunicípio
Amaro transferiu seu título eleitoral de Vitória para a Serra. Só poderá votar e ser votado nomunicípio. Crédito: Amarildo

O deputado federal Amaro Neto (Republicanos) transferiu, oficialmente, o seu domicílio eleitoral de Vitória para a Serra –precisamente, para a seção eleitoral do bairro Jardim Limoeiro. Assim, se for candidato (ele ainda não deu certeza) nas eleições municipais de outubro, não poderá mais concorrer a prefeito de Vitória. Só da Serra.

Nesse caso, se for candidato à sucessão de Audifax Barcelos (Rede), é muito provável que Amaro entre nessa disputa com o apoio do próprio prefeito. Ambos têm mantido conversas nesse sentido, as quais ajudaram Amaro a tomar sua decisão.

Nesse novo cenário, Audifax ganha. Amaro também. Sérgio Vidigal (PDT), Vandinho Leite (PSDB) e Bruno Lamas (PSB) perdem muito. Entenda, em cinco pontos, as consequências dessa agora muito provável candidatura de Amaro a prefeito da Serra.

1. AUDIFAX PASSA A TER UM CANDIDATO PARA CHAMAR DE SEU

Meio isolado no tabuleiro político capixaba, Audifax ensaiou uma aproximação com Amaro e o grupo político do deputado no início do ano passado. Depois esse movimento esfriou, mas agora está superaquecido. Fonte ligada ao prefeito garante que os dois têm conversas avançadas para que Amaro seja o candidato de Audifax na eleição serrana.

Os dois assim estabelecem uma relação simbiótica, do tipo "uma mão lava a outra" (com água e sabão, bem lavada): Amaro dá a Audifax o que o prefeito necessita, mas não tem, e vice-versa. O que Audifax não tem que Amaro pode lhe dar? Um candidato competitivo para chamar de seu.

Audifax tentou, tentou, pelejou, mas, a praticamente seis meses da eleição, uma verdade inegável se impõe: o prefeito não conseguiu preparar um sucessor criado em seu próprio grupo político. Primeiro, apostou no coronel Nylton Rodrigues (foi para Vitória). Depois, sondou o delegado Rodrigo Sandi Mori (não quis nem ouvir falar do assunto).

Aí ensaiou soluções caseiras: seu coordenador de governo, Jolhiomar Massariol (não topou); seu secretário de Serviços, Igor Elson; sua secretária de Assistência Social, Elcimara Rangel. Convenhamos: nenhum desses três nomes parecia capaz de ameaçar o favoritismo que Sérgio Vidigal sempre carrega na largada. Com Amaro é diferente. Um bom acordo com o deputado resolve o problema de Audifax.

2. AMARO PASSA A CONTAR COM A MÁQUINA DA PREFEITURA DA SERRA

E a recíproca? O que é que Amaro não possui que Audifax pode lhe proporcionar? Numa palavra: estrutura. Estrutura política e de campanha. Amaro tem popularidade. Ponto. Não tem realizações para mostrar como gestor (nunca esteve no Poder Executivo) nem como parlamentar (acumula quatro anos discretíssimos na Assembleia Legislativa e um ano igualmente discreto na Câmara Federal).

Amaro Neto e Audifax Barcelos
Amaro Neto e Audifax Barcelos. Crédito: Divulgação deputado Amaro Neto / A Gazeta

Mais importante: tem um núcleo bem restrito de aliados e conselheiros próximos e pertence a um partido que ainda está se estruturando no Espírito Santo. Sob a condução de Roberto Carneiro – conhecido como bom “engenheiro partidário” – , o Republicanos se prepara para dar um salto no Estado na eleição municipal deste ano, mas ainda é um partido modesto em terras capixabas.

Audifax pode transferir tudo isso para Amaro: estrutura, aliados, cabos eleitorais, contatos, doadores… Sendo candidato na Serra, com apoio do próprio prefeito, o deputado terá toda a máquina municipal trabalhando a favor dele.

3. VIDIGAL PASSA A TER UM PROBLEMÃO

Sempre muito popular principalmente nas camadas de renda mais baixa da Serra, Vidigal tinha tudo para fazer um “estrago eleitoral”, varrendo praticamente sozinho os votos dos eleitores dessas comunidades. Agora passa a ter um problema muito particular:

Antigo aliado de Vidigal, Amaro o apoiou contra Audifax em 2016, mas dessa vez, como vimos, tende a se unir ao redista contra o pedetista. E mais: até pelo perfil dele mesmo como apresentador e do seu programa de TV (mais voltado para as classes D e E), Amaro é mais popular exatamente nos bairros onde Vidigal sempre vai bem. Ou seja, pode tirar votos de Vidigal exatamente onde ele é mais forte.

Os números de Amaro na eleição a prefeito de Vitória em 2016 provam isso: o deputado perdeu aquele pleito para Luciano Rezende (Cidadania), mas derrotou o prefeito em praticamente todos os bairros de mais baixa renda da Capital.

O ingresso de Amaro na eleição da Serra representa a “invasão” de um terceiro personagem nessa disputa particular travada entre Audifax e Vidigal desde 2008 e desequilibra esse pêndulo de poder que domina a política do município nos últimos doze anos.

Isso pode levar Vidigal, no mínimo, a repensar a sua pré-candidatura, com base no que indicarem as futuras pesquisas eleitorais. Ou quem sabe até a buscar algum tipo de composição com Amaro, cujo passe, nesse caso, passaria a ser disputado entre ele e seu arquirrival na Serra.

4. VANDINHO PASSADO PARA TRÁS NA RELAÇÃO COM AMARO

Os próximos dias decantarão isso melhor, mas a primeira impressão é inevitável: nessa mudança de colégio eleitoral de Amaro, o deputado estadual Vandinho Leite (PSDB) parece ter sido passado para trás.

Vandinho faz parte do grupo de Amaro Neto, que reúne também o presidente da Assembleia, Erick Musso (do Republicanos, como Amaro). Foi fundamental para a recondução tranquila de Erick, em fevereiro de 2019, para o segundo biênio na presidência da Assembleia, convencendo deputados novatos a apoiá-lo.

Diferentemente de Amaro, Vandinho é um autêntico politico da Serra, onde começou sua trajetória, como vereador. E, diferentemente de Amaro, é pré-candidato à Prefeitura da Serra desde que retornou para a Assembleia.

Muito bem. O acordo que Vandinho esperava com Amaro e o Republicanos era outro: ele seria o único candidato desse grupo a prefeito da Serra e contaria com o apoio de Amaro; em troca, como presidente estadual do PSDB, levaria seu partido a apoiar Amaro em Vitória ou quem quer que fosse o candidato do Republicanos (por exemplo, Lorenzo Pazolini).

Agora isso muda radicalmente. Com Amaro no páreo, Vandinho pode até manter a candidatura na Serra, mas terá que enfrentá-lo… Quanto ao novo cenário em Vitória, fica para uma próxima coluna.

5. BRUNO LAMAS: PRECISA DE TRABALHO E DE ASSISTÊNCIA PARA SE DESENVOLVER

Reeleito deputado estadual em 2018, Bruno Lamas foi “puxado”, em fevereiro de 2019, comecinho do governo Casagrande, para ser secretário estadual de Trabalho, Assistência e Desenvolvimento Social, com um objetivo sabido por todos: fazer enregas à população de baixa renda e ganhar mais visibilidade mirando as eleições deste ano.

Isso porque, a princípio, sua candidatura a prefeito era a grande aposta do PSB, partido dele e também de Casagrande. O problema é que, além do PSB, Lamas sonhava em poder se lançar com o selo de “candidato de Audifax”. E penou até o último momento para convencer Audifax a apoiá-lo, alegando uma dívida política pelo apoio decisivo que o prefeito recebeu dele mesmo e do PSB para virar a eleição contra Vidigal no segundo turno em 2016.

Só que essa conta, se é que algum dia houve, foi rasgada por Audifax. A aliança do prefeito com Amaro sepulta qualquer resquício de chance de o prefeito apoiar Bruno Lamas. Até porque Audifax não faz nem quer fazer parte do projeto de poder do PSB no Espírito Santo (leia-se de Casagrande).

A situação de Lamas, assim, fica complicada, com alguns agravantes. Primeiro, Casagrande não vai entrar pessoalmente na campanha em nenhuma disputa que tenha mais de um candidato da sua base de apoio. A Serra já tinha dois: Vidigal e o próprio Lamas. Com Amaro, o governador também faz questão de cultivar boa relação e não há de apoiar explicitamente nenhum candidato contra ele, mesmo que seja um candidato do seu próprio partido.

Outro agravante: o tempo já era curto para Lamas; agora o espaço também ficou. Nessa corrida, o socialista não larga com o mesmo recall de Amaro e de Vidigal. Foi justamente por isso que decidiu antecipar o seu retorno à Assembleia: conforme resolução do TSE, ele poderia se desincompatibilizar do cargo de secretário de Estado até o dia 4 de junho. Mas, a pedido, a sua exoneração será publicada nesta quinta-feira (2) no Diário Oficial do Estado.

Para viabilizar candidatura, Lamas precisa fazer aquilo que todo pré-candidato sempre fala: percorrer a cidade, “gastar sola de sapato”... Para isso, precisa de tempo e de condições de mobilidade.

Entretanto, com a imprevisível pandemia do coronavírus e as consequentes restrições de mobilidade, já há quem aposte que o tradicional corpo a corpo (muito importante na Serra) ficará muito limitado nessa campanha eleitoral, por ser, literalmente, não recomendado por autoridades na área de saúde pública e controle epidemiológico.

A Gazeta integra o

Saiba mais

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.