Na última segunda-feira (27), um dos programas de entrevista mais antigos da televisão, o Roda Viva, colocou no centro do debate o fotógrafo que denuncia a realidade nua e crua, sempre em preto e branco, Sebastião Salgado. Desde a cadeira da faculdade, nas aulas de fotografia, meus ouvidos se abriam para escutar as lições de Salgado, sempre ditas pelos nossos professores: fotografia não é clique, é olhar; Não é uma imagem, mas uma inserção na realidade, que depois de registrada se torna uma mensagem a ser comunicada.
Sebastião ensina pro mundo que a fotografia só faz sentido depois que o fotógrafo penetra na realidade e a revela na sua essência. Hoje, em tempos de uma Amazônia ameaçada, Salgado dedica sua vida e sua energia para registrar os cantos e montanhas da Amazônia. A expressão capturada dos indígenas e as particularidades dessa região vão se tornar exposição com uma mensagem: cuidado, sensibilidade e urgência.
Na pauta do Roda Viva também estava o coronavírus, a ameaça do vírus aos povos indígenas e a lição da pandemia. Para ele, nesse isolamento, no silêncio que está levando o coronavírus, seremos convocados a pensar no consumo exagerado, repensarmos o planeta em que estamos vivendo. Esse momento está mostrando que teremos que robustecer o sistema de saúde, reformar o sistema econômico, no fundo, repensar o formato de mundo e de sociedade.
Sebastião fez questão de pontuar, de Paris, mas no centro do Roda Viva, a sua ousadia e coragem em escrever uma carta aberta aos três Poderes alertando a necessidade do cuidado ao povo indígena e o perigo do coronavírus, uma pressão popular é importante para que as Instituições interfiram principalmente no Norte do país.
Finalizando, Salgado pontua: “Fotografia é algo tangível. É a memória da sociedade em que vivemos”. E ainda, “a gente fotografa com a herança da gente”. Na expressão da fotografia, está o DNA do olhar e da vida de quem fotografou. A presença de Salgado no mundo ensina que a denúncia não precisa de grito, mas de uma expressão; não precisa de formalidades, precisa de realidade; ela não dá pra ser superficial, ela precisa estar integrada no chão, na história e na cultura das pessoas.
O mundo precisa do sabor de Salgado, precisa das suas lentes de ver o mundo, precisa da sua sensibilidade de sentir. O fotógrafo que chega aos 80 anos, já planeja desligar as câmeras, mas não o filme, o negativo, nem, tampouco, fechar os olhos que enxergam o mundo por um ângulo diferente e tão necessário.
Talvez o jornalismo, a publicidade, a religião, a fotografia, a política, a economia, a educação, a crítica, a televisão e a internet precisam um pouco do tempero que dá sabor a vida de Sebastião... e seremos outro mundo.