A partir de hoje à noite já é Natal. Por hora, um dia para recordar o nascimento de Jesus Cristo, o Messias, conhecido no mundo inteiro como o Filho de Deus. Mas, não é possível celebrar esse dia sem reconhecer o significado desse menino nascido na periferia de Belém. Para reconhecer, precisamos ver, e para ver precisamos ter olhos. A pergunta que deve nos incitar nesse dia pode ser justamente essa: para onde vai meu olhar nesse Natal? Quem será o verdadeiro Messias?
Às vezes me pego imaginando o quão foi difícil para o povo do tempo de Jesus o aceitar e reconhecer que um Rei poderia vir da favela. Quando digo dessa dificuldade, me refiro a cultura de então, orientada para esperar o “Senhor dos Exércitos”, um Capitão, quem sabe um Coronel adornado de ouro e brocados, que viria para ser juiz, e de repente surge um menino, negro, pobre, sem teto, nascido no meio de um “curral”, longe dos templos religiosos e dos palácios. Um menino que não desce glorioso do céu, mas se assujeita nascer entre animais, e para o mundo e os poderosos de seu tempo, anuncia uma mensagem de contradições e de compreensão, ao invés de julgamentos.
Passaram-se dois mil anos e estamos nós aqui celebrando esse Natal, tendo à frente dos olhos quase que o mesmo enredo do passado. Messias escondidos em Palácios, Senhores dos Exércitos, sendo incensados e aclamados como “Salvadores”, enquanto os Messias das Favelas, das periferias, continuam sem teto, sem rumo, tendo suas vozes abafadas e muitos sendo assassinados. Para onde vai meu olhar nesse Natal? Quem será o verdadeiro Messias?
Natal é tempo de encarar o “presépio” das avenidas, das encruzilhadas, das palafitas, das tendas de lona e tentar ver o Messias ali. A mensagem Natalina não é aquela que se apresenta na TV com luzes brilhando o tempo inteiro, famílias fartas, isso é a plenitude do Natal. Um fato! Mas, a Mensagem do Messias está subliminar no prato vazio, nas Marias e Josés sem um lugar para ninar os “Jesuses” do nosso tempo.
Em tempos tão polarizados, nosso olhar e nossa mente tende a se desviar do verdadeiro Messias. Por outro lado, nosso maior cuidado deve ser o saber discernir os Messias que estão mais para Herodes do que o Messias de fato. Nosso maior cuidado deve ser o saber discernir o Messias que faz questão de estar no meio do povo, do Messias que anuncia um Deus acima de todos.
Por fim, como dizia Rubem Alves, “Natal precisa ser tempo de ‘acriançamento’”, sobretudo nesse Natal. Muitos de nós estamos sendo apresentados a teoria de um Deus que está nas alturas, logo, é tempo de ver um Deus que está no baixo, embaixo dos nossos olhos, na altura dos nossos pés, numa manjedoura. Em tempos de Messias sedentos por serem deuses, é preciso fazer do Natal um momento de olhar para um Messias que desejou ser menino, quando “todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser deus”, diz Boff. Feliz Natal!