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MP denuncia 5 por suposta coação eleitoral de detentos em presídio no ES

Votos foram destinados a candidatos a deputados; denúncia contra parlamentares foi arquivada por falta de prova de suas  participações

Vitória
Publicado em 23/02/2026 às 03h30
CDP da Serra
Crédito: Arte - Camilly Napoleão com Adobe Firefly

Cinco pessoas foram denunciadas à Justiça eleitoral por integrar uma suposta associação criminosa armada que teria coagido detentos a votarem em candidatos escolhidos pelo grupo.

Os fatos investigados envolvem o primeiro turno das eleições de 2022, realizado no Centro de Detenção Provisória da Serra (CDPS).

O relato é de que houve participação de diretores da unidade, policiais penais, assessores e colaboradores políticos. Juntos teriam executado o suposto esquema, baseado na vulnerabilidade dos presos, induzidos ao voto sob temor implícito de perda de benefícios ou represálias no ambiente carcerário.

investigação foi conduzida pela Polícia Federal, que além de depoimentos de presos e servidores da unidade, cumpriu mandados de busca e apreensão. O inquérito resultou no indiciamento do grupo, que foi denunciado pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES), por intermédio da Promotoria Eleitoral da Serra, no último dia 13.

As defesas dos denunciados, cujos nomes e participações estão listados abaixo, negam as acusações.

Parlamentares não participaram

A ação no presídio tinha o objetivo de conquistar votos para dois candidatos: Josias Mário Da Vitória (PP), que à época disputava reeleição à Câmara dos Deputados, e Alexandre Quintino Moreira (PDT), que concorria para um cargo na Assembleia Legislativa.

Em relação aos dois, o MPES promoveu o arquivamento das investigações por não encontrar indícios de que tenham participado do planejamento ou da execução dos crimes.

“Não foram identificados indícios, seja nos celulares apreendidos, seja nos depoimentos colhidos, de participação deles no planejamento ou na execução das condutas investigadas. O caderno investigativo demonstra o esgotamento das diligências possíveis, inclusive com análise integral das conversas extraídas dos aparelhos telefônicos”, é dito no documento.

No pleito de 2022, 149 pessoas se registraram para votar no CDP da Serra. No primeiro turno, o comparecimento registrado foi de 120 eleitores. Da Vitória obteve 80 votos (66% do total de votos) e Quintino 69 votos (57%). 

As investigações destacaram que esses candidatos obtiveram votações expressivas na unidade, superando inclusive os votos destinados a candidatos a cargos majoritários, como governador e senador.

Por nota, o deputado federal Da Vitória afirma que não teve qualquer envolvimento no caso. "A comprovação se dá pelo relatório final da Polícia Federal concluir pelo não indiciamento e pelo fato de o Ministério Público não oferecer denúncia", informou o parlamentar.

Ao ser procurado, Quintino, que não se reelegeu, informou que "a justiça foi feita", ao se referir a inclusão do seu nome nas apurações.

Os denunciados

A investigação e a denúncia identificaram divisão de tarefas para garantir o controle do voto dos internos, ação que teria sido executada pelas seguintes pessoas:

  • Chelsea Genevieve de Oliveira Moraes Fernandes - Era diretora do CDP Serra e teria se envolvido na logística da execução do plano, com organização da movimentação dos presos, e redução da equipe apenas a Pablo e Flávia. O objetivo seria facilitar o controle da operação.
  • Pablo Nascimento Estevão - Diretor adjunto da unidade em 2022. É apontado como o responsável direto pela movimentação dos presos, e que teria realizado a "resenha" (orientação de voto). Foram apresentados áudios em que teria se vangloriado de ter "alinhado" os votos e acertado o percentual que um dos candidatos receberia na unidade.
  • Flávia dos Santos Silva Sobrinho - Como policial penal, teria ficado na linha de frente, entregando aos detentos "colinhas", que eram recolhidas para destruição de vestígios. É dito que tentou monitorar o voto dentro da cabine, o que as mesárias teriam impedido. Há relatos de supostas ameaças aos presos que trabalhavam na unidade caso a "orientação" não fosse seguida.
  • Deborah Alves dos Santos - É apontada como colaboradora de campanha que ficou encarregada pela confecção e entrega das "colinhas" para a equipe do CDPS distribuir. Ela teria participado do alinhamento operacional na véspera do pleito, confirmando que "estaria tudo certo" .
  • Silayr Pedra Ribeiro - O relato é de que ele foi o assessor político, o elo externo que teria validado o plano de arregimentação de votos na unidade prisional. Em mensagens identificadas pela investigação, ele teria demonstrado entusiasmo com a ideia de concentrar os votos dos detentos para seu candidato, afirmando: "Aí sim, heim. Tudo DV".

Foi pedida a condenação dos denunciado por coação eleitoral e associação criminosa armada, considerando que os fatos ocorreram em ambiente prisional.

O articulador do suposto esquema, segundo a denúncia, foi Sóstenes Araújo, à época diretor da Escola Penitenciária. Proposta que teria surgido após obter informações de que o Espírito Santo, na ocasião, era o segundo Estado do país com maior número de presos eleitores. O passo seguinte foi o contato com um dos denunciados, Silayr.

Sóstenes morreu durante as investigações e foi declarada a “extinção da punibilidade”.

O mesmo documento também informa que não foram encontrados indícios da participação do policial penal Rhuan Karllo Alves Fernandes, presidente de um dos sindicatos que representa a categoria, no suposto esquema. E contra ele as investigações também foram arquivadas.

As apurações começaram a partir de uma denúncia anônima. À Polícia Federal, detentos relataram que "votaram com medo" por estarem "sob o poder" dos policiais e temiam perder benefícios como banho de sol, visitas e acesso a cursos.

A abordagem aos presos ocorria no caminho para a sala de votação, com a distribuição de colinhas com os números dos candidatos. Material que era recolhido após o voto. No final do pleito, relata a denúncia, em trocas de mensagens os denunciados teriam comemorado o bom resultado de votos destinados a seis candidatos.

O que dizem as defesas

Chelsea é representada pelo advogado Rafael Oliveira Wandermurem. Ele avalia como indevida a inclusão do nome de sua cliente na investigação e em uma suposta ação penal, considerando que as denúncias contra ela foram anônimas.

“Além da busca e apreensão ter sido ilegal, o nome dela não foi citado por nenhum interno ouvido pela Polícia Federal. Não houve comprovação dos fatos que haviam sido denunciados. E a equipe que estava na seção eleitoral informou que recebeu, por parte da minha cliente, total autonomia para realizar o trabalho”, relata.

Em relação a Rhuan, o advogado pontua que foi possível demonstrar durante a fase de investigações que não havia indícios da participação de seu cliente nos fatos.

“Ele era presidente de uma entidade sindical e não tinha nenhum elemento que o vinculasse aos fatos. Ele não chegou a ser indiciado pela Polícia Federal. Esperamos agora o mesmo desfecho em relação a Chelsea”, assinalou.

A advogada Renata Araujo Da Cruz Silva Ferreira faz a defesa de Pablo. Ela destaca que ele é inocente de todas as acusações. “A defesa vai provar a inocência dele”, destacou.

Flávia Santos é representada por Elton Dos Santos Ferreira. Segundo ele, a denúncia do MP não se sustenta por falta de provas consistentes. “A inocência da investigada será devidamente demonstrada no curso do processo, com o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa”.

Ele destaca que confia na atuação técnica do Judiciário para que o caso seja analisado com serenidade e imparcialidade.

Por nota, Silayr Pedra Ribeiro afirma que não conhece os agentes penitenciários envolvidos e nem a direção do CDP da Serra. Acrescenta que está sendo investigado "por apenas responder uma única mensagem de WhatsApp com reportagem sobre o resultado da votação na unidade prisional".

Informa que "confia na justiça e que vai comprovar no processo que não tem qualquer ligação com os fatos investigados".

O advogado Igor Santos faz a defesa de Deborah. Por nota, afirma que ela não tem qualquer relação com o caso e que não atuou pedindo voto dentro de unidade prisional. Destaca que ela "apenas entregou material solicitado por um eleitor, conforme mostram as provas nos autos".

Acrescenta que no andamento do processo será comprovado que ela não tem ligação com os fatos. "Confiamos na absolvição por parte da Justiça", assinalou.

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