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Teto de gastos

Políticas de austeridade e a retirada de direitos fundamentais

O alto gasto de um governo, em uma fórmula descompromissada com a vida humana, repercute no aumento da carga tributária e na retirada de direitos

Publicado em 08 de Novembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

08 nov 2021 às 02:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Políticas de austeridade são muito utilizadas em momentos de crise econômica, em que as despesas são maiores do que as receitas. Consistem em controle rigoroso de gastos, que tem o afã de equilibrar contas e atribuir credibilidade aos governos. Há de se pontuar que essa credibilidade é atribuída por liberais de plantão, agentes de um sistema que transformou o capital em sujeito e a pessoa em coisa. Se for analisar requisitos internacionais para se garantir acessos a oportunidades, as políticas de austeridade também cumprem esse papel, sustentando estruturas de colonialidades contemporâneas.
O alto gasto de um governo, em uma fórmula descompromissada com a vida humana, repercute no aumento da carga tributária e na retirada de direitos. Os economistas que adotam a filosofia liberal apostam no binômio mágico: aumento de impostos e corte de gastos para equilibrar as contas públicas, e acabam por suscitar muitas discussões, mas somente é atingido um alvo: classes empobrecidas. Em nenhuma dessas possibilidades aponta-se a redução de privilégios da classe política e alta como proposta para amenizar a situação.
Os investimentos em políticas sociais que visam garantir direitos fundamentais de forma universal são atingidos de prima facie, prejudicando as camadas mais pobres da população e agudizando as desigualdades sociais.
Em 2016, com a aprovação do famigerado Projeto de Emenda Constitucional (55/241), instituiu-se um novo regime fiscal por meio da Emenda Constitucional 95, estabelecendo um teto para gastos públicos no Brasil, limitando o governo federal, até 2037, a aumentar os gastos, definindo que o seu crescimento seria totalmente controlado por lei. Impedido estava de criar um orçamento maior que do ano anterior, sendo permitido somente incidir o índice inflacionário, mediante a condicionante de haver cortes em outras áreas.
A principal ideia tendencial era de que em alguns anos os gastos públicos fossem reduzidos e limitados a educação e saúde. Ademais, os órgãos federais que excedessem seus limites incorreriam em vedação de aumento de salários de servidores, suspensão de concursos públicos e impedimento em criação de novos cargos. Um festival de retrocessos.
O princípio aplicado era inegociável, mesmo que a lesão aos direitos fundamentais fosse inevitável, e sua consequência derradeira pudesse ser a miséria de milhões de pessoas.
Pouco tempo passou. Muito aconteceu. Veio uma pandemia. Os princípios se tornaram plásticos para se amalgamar a algo incongruente com a garantia de Direitos Fundamentais e Sociais daqueles que suportam toda a dor de não ter emprego, renda, saúde, escola, casa e comida.
Agora a pauta consiste em “furar” o teto de gastos para objetivos nada ortodoxos, como bem enquadrado pelo editorial do "Financial Times", que deve servir de alerta, considerando que não se cogitou, inclusive com contundentes cristalizações, o cancelamento da medida de austeridade nem mesmo para salvar os mais necessitados da morte desde o início da pandemia, com a justificativa de preservar a economia.
Diante dessa possibilidade imposta em um momento que configura a antessala para um ano eleitoral efervescente, recordo-me de Groucho Marx, um mestre do humor norte-americano que certa feita teria dito: “Estes são os meus princípios. Se você não gosta, tenho outros”.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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