Desde de 2016, com a atmosfera do processo de afastamento da presidente da República, com os retrocessos que eram sinalizados no campo dos direitos sociais e trabalhistas, recrudescido em 2018 com a eleição de um governo de extrema direita no Brasil, o termo “tempos estranhos” foi ocupando a narrativa de muitas pessoas, com a intenção de alertar que poder-se-ia estar diante de movimentos que acarretariam a supressão de direitos e vulnerabilização de algumas condições de vida.
Passados mais de 5 anos, ainda falamos que vivemos “tempos estranhos”, e por vezes parece que já nos acostumamos com eles. A crise humanitária, ambiental, hídrica, social, econômica, política e jurídica, parece que foi absorvida no nosso cotidiano litúrgico, e por vezes parece que estão esgotadas as nossas possibilidades de reação diante do caos que o Brasil se encontra imerso.
As novidades são cada dia mais catastróficas e bizarras, e nossa energia para reação parece também estar em crise, visto não ter sido suficiente para reverter o quadro. No entanto, uma digressão necessária precisamos fazer ao identificar nesse contexto de “tempos estranhos” três grupos distintos, com situações bem diferenciadas que acabam por contribuir para a compreensão do que acontece.
De prima facie, existe um grupo de pessoas que não usam o termo “tempos estranhos”, considerando que não foram atingidos de forma nenhuma pelas crises ora elencadas. E se utilizam, o faze em retórica depreciativa, cínica e rasa.
Outro grupo, mesmo que tenha de alguma forma sido atingido, o fora de forma mais amena, e conseguiu manter o mínimo para fazer a travessia de um tempo que pode ou não passar. Daí a necessidade de se aprender a viver nesse tempo, considerando a hipótese de sua permanência. Esse grupo utiliza o termo de maneira política responsável, para fazer o enquadre das violações de direitos humanos que integram, mais do que nunca, as formas de vida.
O terceiro grupo, que realmente foi atingido, quem não teve sua vida suprimida pela Covid, pela negação de direitos ou pela violência, conduz sua vida precária de forma a mantê-la de um jeito minimalista, vivendo uma hora de cada vez, fazendo da sobrevivência uma arte de chegar até amanhã. Esse grupo não traz o termo em questão na sua narrativa, mas sente esses “tempos estranhos” de forma tão contundente e real, que já acatou, normatizou e normalizou sua ocorrência.
Resignar-se com o que está acontecendo sem resistir ou contestar é normalizar um tempo provisório, de características aflitivas. Acatar as normativas laterais que violam direitos conquistados historicamente em uma esteira democrática é incorporar a institucionalização da violação.
Tempos estranhos passaram a integrar a vida contemporânea, mais que um estranhamento de algo que não se reconhece, mas que não faz parte da gente e que parece estar fora do lugar. Não é excesso relembrar que existe um quantitativo que não foi atingido e não se vê afetado com o que acontece ao seu entorno. O sofrimento, que é alheio, não lhe pertence, por isso, não implica, e nisso não vê nada de estranho.