A célebre frase bradada por Barack Obama quando de sua primeira vitória rumo à Casa Branca, “sim, nós podemos”, rapidamente foi deslocada do seu real sentido, que tinha sua gênese como superação do racismo, e passou a ser um slogan motivacional raso e descontextualizado da condição socioeconômica, que expressa um excesso de positividade, característica da sociedade do desempenho.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em sua obra “A sociedade do cansaço”, problematiza as relações sociais que produzem sofrimento psíquico. A produção de doenças contemporâneas possui um aspecto imanente, que indica uma falsa liberdade, exigindo superação constante.
Vivemos uma era de imperativos de realização, que requerem uma perene mobilidade e velocidade que nos cansa a alma. Produção de subjetividades e rebatimentos que não percebemos são recorrentes. Para o filósofo “o aspecto central da análise reside justamente na falsa liberdade e no processo destrutivo contido nesta transformação contemporânea”.
Assim como no filme “Cisne Negro”, em que a tese de Han ganha corpo, a representação de uma imposição de performance e desempenho permanentes, com constante autossuperação, são levadas até as últimas consequências. Ele constata que “a positividade do poder é mais eficiente que a negatividade do dever”.
Mas, um dia, a fatura chega. As pessoas hoje em dia não suportam os altos e baixos que são próprios da vida. Não se sabe mais enfrentar as frustrações. Os efeitos colaterais do discurso motivacional, da lógica mercadológica, a indústria da autoajuda e a necessidade de sempre ter que superar-se são materializados em formas de enfermidades psíquicas que são invisibilizadas e medicalizadas, produzindo uma miríade de detentos da positividade do estímulo, eficiência e necessidade de reconhecimento. Cada um se tornou o carrasco de si. Vigilante de nós mesmos. Essa é a consequência da “ideologia da positividade”.
Há o aumento considerável de enfermidades. Depressão, transtornos de personalidade, síndromes como hiperatividade e Burnout são exemplos disso. Consequência da exigência de um cotidiano altamente produtivo. Cobrança para que sejamos multitarefas. Temos que fazer tudo ao mesmo tempo agora, e não nos damos mais a chance de pausas. Desaprendemos a criar recantos. Esquecemo-nos de procurar oásis. Calculamos afetos. Monetizamos relações. Perdemos a capacidade de nos entregar à vida. Nos acostumamos com o cotidiano que se transformou na régua da loucura.
Antes tínhamos a negatividade das sociedades disciplinares, operadas por meio de muros para conter o “sujeito da obediência”. Hoje temos uma sociedade contemporânea que se distingue pelo excesso de positividade, com o “sujeito do desempenho”, que não precisa ser mais contido, pois ele se tornou o algoz de si. Adoece. Fenece. Cansa. Desiste. Descarta-se.