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Luto

Lula Rocha: os bons morrem jovens

Quando um militante de direitos humanos tomba, o vazio que deixa na luta é de uma dor imensurável

Publicado em 22 de Fevereiro de 2021 às 02:00

Públicado em 

22 fev 2021 às 02:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Na Praça Costa Pereira, homenagem a Luiz Inácio Silva Rocha, ou Lula Rocha, militante aguerrido dos direitos humanos que morreu hoje após duas paradas cardíacas e complicações renais
Homenagem à Lula Rocha Crédito: Fernando Madeira
Era 10 de fevereiro quando um jovem de 36 anos e com uma história robusta de luta pelos direitos humanos fez sua Páscoa. Após enfrentar uma batalha cardíaca e renal, nos deixou, causando uma tristeza enorme e trazendo a certeza que ele era maior do que imaginávamos.
Quando um militante de direitos humanos tomba, o vazio que deixa na luta é de uma dor imensurável. Ainda com o impacto da notícia e a dormência dos movimentos corporais, as estratégias para continuar o caminho sem a pessoa passam a povoar os pensamentos, abrindo espaço para descobertas de que a presença não deixa acontecer. Eterniza-se nas suas ações que era a concretização de seus ideais.
Lula Rocha pensava no coletivo e somente conjugava verbos no plural. Como bem asseverou Padre Kelder, era o melhor militante de direitos humanos na contemporaneidade, com abrangência de capilaridade nacional de suas atividades incalculável, e ainda, possuidor de uma ternura e contundência absurdas. Atuava nos mais diversos segmentos e de forma horizontalizada, acolhia a todos sem vaidade ou arrogância. Nunca flertou com o poder, e tinha a capacidade de sentar em uma mesa de decisão ou estar na rua em sede de reivindicação com a mesma veemência e intransigente frente a uma violação de direitos humanos.
Oriundo da periferia de Cariacica, com uma formação cristã-popular sólida, foi forjado na luta acompanhando seus pais, Isaías e Penha, que nas dobras da aspereza da lida não deixaram de ensinar a seu filho o valor de celebrar cotidianamente a vida, à beira de uma boa cadência de samba e com uma gargalhada larga que amenizava qualquer tensão.
Não se queixava de nada, nem mesmo da enfermidade que o levou. Para tudo tinha uma palavra de coragem equilibrada que nos exortava a seguir na travessia. A sua frugalidade nos reposicionava perante às urgências da vida.
Lula Rocha, 36 anos, representante de movimentos sociais no Espírito Santo
Lula Rocha, 36 anos, morreu em 10 de fevereiro Crédito: Arquivo pessoal/Facebook
Lula Rocha, ao nos deixar tão precocemente, além de nos ensinar que precisamos estar permanentemente atentos aos sinais da vida quanto ao autocuidado, ainda nos revela que o tamanho de uma pessoa mantém um vínculo intrínseco com a história que ela escreve, dos atravessamentos que realiza e das transformações que possibilita acontecer. No caso de Lula Rocha, as suas características humanísticas e seu compromisso com o outro foram responsáveis por determinar que ele era uma pessoa necessária para que o mundo fosse um lugar melhor de se viver e a certeza de que, como bem versou Renato Russo, “os bons morrem jovens”.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

Verônica Bezerra

É advogada, doutoranda em Ciências Sociais, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais, especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

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