Era 10 de fevereiro quando um jovem de 36 anos e com uma história robusta de luta pelos direitos humanos fez sua Páscoa. Após enfrentar uma batalha cardíaca e renal, nos deixou, causando uma tristeza enorme e trazendo a certeza que ele era maior do que imaginávamos.
Quando um militante de direitos humanos tomba, o vazio que deixa na luta é de uma dor imensurável. Ainda com o impacto da notícia e a dormência dos movimentos corporais, as estratégias para continuar o caminho sem a pessoa passam a povoar os pensamentos, abrindo espaço para descobertas de que a presença não deixa acontecer. Eterniza-se nas suas ações que era a concretização de seus ideais.
Lula Rocha pensava no coletivo e somente conjugava verbos no plural. Como bem asseverou Padre Kelder, era o melhor militante de direitos humanos na contemporaneidade, com abrangência de capilaridade nacional de suas atividades incalculável, e ainda, possuidor de uma ternura e contundência absurdas. Atuava nos mais diversos segmentos e de forma horizontalizada, acolhia a todos sem vaidade ou arrogância. Nunca flertou com o poder, e tinha a capacidade de sentar em uma mesa de decisão ou estar na rua em sede de reivindicação com a mesma veemência e intransigente frente a uma violação de direitos humanos.
Oriundo da periferia de Cariacica, com uma formação cristã-popular sólida, foi forjado na luta acompanhando seus pais, Isaías e Penha, que nas dobras da aspereza da lida não deixaram de ensinar a seu filho o valor de celebrar cotidianamente a vida, à beira de uma boa cadência de samba e com uma gargalhada larga que amenizava qualquer tensão.
Não se queixava de nada, nem mesmo da enfermidade que o levou. Para tudo tinha uma palavra de coragem equilibrada que nos exortava a seguir na travessia. A sua frugalidade nos reposicionava perante às urgências da vida.
Lula Rocha, ao nos deixar tão precocemente, além de nos ensinar que precisamos estar permanentemente atentos aos sinais da vida quanto ao autocuidado, ainda nos revela que o tamanho de uma pessoa mantém um vínculo intrínseco com a história que ela escreve, dos atravessamentos que realiza e das transformações que possibilita acontecer. No caso de Lula Rocha, as suas características humanísticas e seu compromisso com o outro foram responsáveis por determinar que ele era uma pessoa necessária para que o mundo fosse um lugar melhor de se viver e a certeza de que, como bem versou Renato Russo, “os bons morrem jovens”.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta