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Gatica: medo transformado em luta

Nome sinônimo de resistência e luta pela memória, verdade e justiça, Juan Oscar Gatica faleceu no último dia 29 de janeiro

Públicado em 

08 fev 2021 às 02:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Mão fechada em punho
Gatica contribuiu com a construção de um mundo sem injustiças, primando sempre pelos princípios democráticos e populares Crédito: user18526052/Freepik
No último dia 29 de janeiro fez sua Páscoa Juan Oscar Gatica. Num primeiro passar d’olhos esse nome pode não chamar atenção de muitas pessoas, mas para outras tantas, principalmente defensores de Direitos Humanos, esse nome é sinônimo de resistência e luta pela memória, verdade e justiça.
Esse exímio portenho, como costumo falar, nasceu na Argentina, mas por reveses da vida e para garantir a sobrevivência de sua família, veio para o Brasil no auge da ditadura em seu país. Era 1980. Erradicou-se na Serra, foi um dos fundadores do Movimento Nacional de Direitos Humanos e do Centro de Defesa de Direitos Humanos da Serra, e contribuiu com a construção de um mundo sem injustiças, primando sempre pelos princípios democráticos e populares. Coordenou a Campanha Nacional de Enfrentamento e Erradicação da Tortura e ajudou a semear os Programas de Proteção a Pessoas Ameaçadas pelo Brasil.
Oscar e sua esposa, Ana Maria Caracoche, tiveram dois filhos sequestrados de forma cruel pelas forças de segurança argentina em 1976 e 1977. Maria Eugênia e Felipe somente foram restituídos mais de sete anos depois, após longa busca com a ajuda das Abuelas de Plaza de Mayo.
Após a restituição de seus filhos, Oscar e Ana travaram uma luta por Memória, Verdade e Justiça, que como sempre nos ensinaram é o tripé do resgate das vidas que foram atravessadas por uma violência estatal dessa natureza, que se utiliza do apagamento e da tortura como instrumentos de eliminação de vidas, ideais e sonhos.
Oscar pagou o preço alto por integrar o Movimento Montoneros, grupo que via a luta armada como o meio para tomar o poder em nome do socialismo nacional e enfrentar uma das ditaduras mais severas da história da humanidade, mas que não foi suficiente para lhe parar no seu propósito por direitos e pela democracia. 
Estima-se que de 1973 a 1986, foram mais de 30.000 mortos e desaparecidos na Argentina. Transformando medo em luta e teimosia, trilhou no Brasil o mesmo caminho que sempre percorreu, atuando ao lado do movimento popular e enfrentando o crime organizado na década de 1990, e mais uma vez se colocando em risco pessoal pelo coletivo.
As conversas com Oscar sempre eram caracterizadas por narrativas de resgate onde se utilizava o dever de memória como forma de superação e reversão da dor, como forma de prescindir do esquecimento da experiência dolorosa diante do receio de apagamento das memórias, correndo-se o risco do desconhecimento pelas novas gerações.
Mesmo com toda a aspereza que poderia ter em decorrência da aridez das suas experiências, era muito fácil encontrar o velho montonero à beira de uma churrasqueira, com um copo de cerveja, cercado pela família e amigos, embalado por uma prosa leve e com a sedução à flor da pele, como um exímio portenho. Com brilho nos olhos, intransigência, coragem e impetuosidade narrava sua trajetória de lutas e disputas por um mundo melhor, revelando-se um original e inconfundível militante de Direitos Humanos.
Os artigos assinados não traduzem necessariamente a opinião de A Gazeta.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

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