Cidades do mundo inteiro são abarcadas por processos de mudanças das paisagens urbanas quando há necessidade oriunda das classes mais abastadas, atendendo à demanda do capital ou de grandes eventos. Muda-se a arquitetura, espalham vigilância que cuida do normal e impõe um quantum sobre os serviços que somente poucos conseguem pagar.
Fenômeno que atinge determinado território, em todo o mundo, pela modificação das dinâmicas da composição do lugar, muitas das vezes com glamurizados pontos comerciais ou construção de novos edifícios, em um movimento de valorizar a região, afetando assim a população empobrecida que ali vivia ou trabalhava.
Com nexo de causalidade direto, temos a valorização seguida de um aumento de custos de bens e serviços, dificultando a permanência de antigos ocupantes de renda insuficiente para sua manutenção no local cuja realidade foi alterada
Esses processos são chamados de “gentrificação”, uma versão tupiniquim americanizada de “gentry”, que quer dizer “pequena nobreza”. O conceito foi talhado pela socióloga Ruth Glass, no início do século passado, ao analisar as transformações observadas em diversos bairros de Londres.
Classificados como culturais ou socioculturais, a base de formulação são as transformações sofridas em grandes cidades, reconfigurando o solo urbano em função de escolhas residenciais, acesso a bens e serviços e relações sociais de pessoas de alta renda. Esses processos são realizados a qualquer custo, mesmo que se tenha que “expulsar” os que ocupavam região eleita, utilizando um termo de Saskia Sassen.
A prática quando surgiu como forma de conservação histórica de patrimônio infelizmente vem sendo locupletada para servir a interesses neoliberais, e se cristalizam como método elaborado e com densas justificativas. São na verdade processos de invisibilização de classes oprimidas.
Esses processos levantam uma discussão séria e necessária sobre o direito à cidade, que diga-se de passagem, é de todos, pobres e ricos. Uma cidade em que se possa viver com dignidade e acesso a todos os bens e serviços é direito de todos e todas. Ocupar os mesmos espaços com respeito às diferenças é a marca maior de uma sociedade democrática e liberta.
Esses processos, que sempre acontecem, correm o risco de agudizar a desigualdade social e ainda incorrer em práticas higienistas, em que os pobres são lançados para outros lugares onde não incomodem aqueles que detêm o poder político, jurídico e econômico.
A Unesco tem mantido discussão permanente sobre esse assunto, considerando os processos de gentrificação que ocorrem no mundo todo, para monitorar as consequências dessas modificações para as pessoas mais empobrecidas.
Em Londres, Nova York, Seul, Marraquexe, Rio de Janeiro, Salvador, Recife ou Vitória, esses processos, que nos apresentam um conceito incômodo, como bem discorreu a antropóloga Silvana Rubino, colocam em relevo a questão de como o convívio social entre os diferentes é um desafio imenso. Busca-se, então, a segregação dessas pessoas que “enfeiam” a cidade para os seus guetos, onde não há nem saúde, nem segurança, nem dinheiro, mas têm formas de vida que são belas e podem ser, na maioria das vezes, mais autênticas e menos plastificadas.