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Machismo

Restos de açúcar e rastros de afeto: sobre a decisão de Chico Buarque

Ações afirmativas, e entre elas encontra-se a arte, têm o condão de ressaltar o problema, e não de resolver. O que vai enfrentar o problema é o passo posterior, da ordem da mudança da realidade

Publicado em 07 de Fevereiro de 2022 às 02:00

Públicado em 

07 fev 2022 às 02:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Nascido em 1944, Chico Buarque completa 76 amos nesta sexta-feira (19)
Chico Buarque tirou música de repertório de shows Crédito: Leo Aversa
Uma recente polêmica envolvendo a música de Chico Buarque feita por encomenda de Nara Leão, em 1967, “Com açúcar, com afeto”, ocupou a ágora da rede social. O rechaço veio de algumas feministas que consideraram a letra uma narrativa de um casamento abusivo, em que a mulher é abandonada no lar e espera o marido com saudades. De fato, o é.
Chico Buarque deu razão às feministas, e explicou o contexto e tempo em que a música fora composta, e ainda decidiu que retiraria a mesma do seu repertórioainda decidiu que retiraria a mesma do seu repertório. De fato, mesmo com a bela letra e acordes sonoros, a canção é uma denúncia.
O episódio nos convida a refletir vários aspectos inclusive a nos posicionar quanto a essa ocorrência em nosso meio.
Primeiramente, a situação retratada na canção belíssima, diga-se de passagem, ainda é uma realidade na sociedade brasileira. Relações são mantidas de forma abusiva por vários motivos: dependência financeira, conveniências familiares, preservação patrimonial ou para pseudoproteção dos filhos.
Infelizmente, milhares de mulheres, de todas as classes sociais, inclusive alta e média, mantêm casamentos infelizes, com uma mão de verniz para evitar desgastes e julgamentos. Essa situação se configura um tipo de violência que é invisibilizada, sob o manto de justificativas que são muito bem recepcionadas pela hipocrisia das vidas de plásticos. Mas é violência, e produz sofrimento.
Em seguida, é preciso analisar que não cantar uma música que retrata uma situação de violência silenciada, é, talvez, não querer tocar nesse vespeiro, que está bem debaixo do nariz. Se olharmos para o lado encontraremos as mulheres da música do Chico. São nossas vizinhas, amigas, tias, avós, mães ou aquela que mora no nosso espelho. E isso é, no mínimo, desconfortável. E nós? Fazemos intervenções dessa natureza quando são com os nossos.
Quando se tem uma música de caráter afirmativo, fazendo-se uma analogia a políticas públicas afirmativas, elas têm o condão de lançar luz sobre uma questão que é crônica no tecido social e produz um estado de coisas que se encontra em dissonância com o que deveria ser uma vida plena e feliz.
Ações afirmativas, e entre elas encontra-se a arte, têm o condão de ressaltar o problema, e não resolver. O que vai enfrentar o problema é o passo posterior, da ordem da mudança da realidade, por meio de ações transformativas. Criar condições materiais, afetivas, psíquicas, sociais e relacionais...  apenas algumas das possibilidades de empotenciamento feminino que, em alguns casos, precisaram compreender que estão nesse lugar, para depois movimentar-se.
Os relacionamentos, quaisquer que sejam eles, incluindo os poligâmicos abertos e monogâmicos fechados, precisam ser livres e leves, com respeito ao espaço e individualidade do outro. Precisam ser vividos, e não administrados. Relacionamentos quando passam a ser administrados com restos de açúcar e rastros de afetos já têm a sua sentença final decretada.
E nesse momento, a música de Chico, cantada por Nara, é o termômetro de que, mesmo mais de 50 anos depois, continua denunciando a situação suportada por milhares de mulheres, chancelada por uma sociedade patriarcal capaz de fazer muitas mulheres pensarem que isso é normal.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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