Desde a noite do dia 30 de outubro vive-se no Brasil um período de transição de sobressaltos, em que todos os dias acontecimentos diversos mantêm o clima de tensão permanente. A democracia brasileira e a pressão arterial do povo são colocadas à prova a cada amanhecer. Cada anúncio é prenúncio de frisson no “mercado”, no “centrão”, na “oposição” ou na “situação”.
A Equipe de Transição, que não conta com muita boa vontade dos que deixam o governo federal, a cada informação a que tem acesso, na maioria dos casos pelo esforço de instituições, solidifica a compreensão das dificuldades que o novo governo terá para, de prima facie, promover uma política de restauro das políticas públicas basais, para somente depois tentar avançar.
Lado outro, uma diminuta parcela do povo, alimentado por um fenômeno que ainda deveremos compreender com profundidade, insiste no descompasso democrático, ao não aceitar o resultado legítimo das urnas e questionar o estado de direito.
Esses dois meses entre o resultado das eleições e a posse, ocasião esta em que um novo governo se inicia com desafios imensos, têm sido marcados por momentos densos e tensos. Desde a redemocratização, em que os períodos de transição ocorrem sem muito holofote, não víamos tanto frisson. Tudo é motivo para um debate, tendo alguns alcançado patamares inimagináveis.
Importante destacar a atuação proativa e incisiva do STF e do TSE, em tentar fazer barrar o festival antidemocrático que se espraiou pelo país de forma irresponsável e deletéria para atacar um sistema sociopolítico que tem lutado para sobreviver.
Viver em um país entre o “não mais” e o “ainda não” após a eleição determinante para o futuro é viver em permanente alerta, e com possibilidade de aprendizados inimagináveis, considerando que o fenômeno que tem levado pessoas ao delírio psicodélico, produzido em bolhas e agudizado o que podemos chamar de fundamentalismo pseudopolítico irracional, está longe de ser arrefecido, diante de posturas irresponsáveis de alguns de seus “líderes”.
Para além das responsabilizações daqueles atos ou omissões que configuram crimes, deverá a sociedade entabular um debate profícuo e profundo sobre as raízes desse fenômeno que é produtor de morte e violações de direitos da grande maioria, em detrimento da manutenção de privilégios de uma minoria.
Esse tempo de sobressaltos está longe de acabar. Resta-nos procurar novas formas de resistir e novas estratégias de sobrevivência, mesmo em um governo que se propõe a fazer o básico para garantir o alcance de uma vida digna para todas a pessoas.