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Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

Comunicação não violenta: a chave para uma sociedade ancorada no respeito

Pensar no aprimoramento da comunicação é pensar na sua qualidade, mas também consiste numa forma de deixar a vida mais leve e fluida

Publicado em 02/08/2021 às 02h00
Conversa entre duas pessoas
Saber ouvir e poder falar se tornou prática de luxo. Crédito: pch.vector/Freepik

Atualmente, a falta de comunicação ou uma comunicação enviesada tem causado muitos problemas contemporâneos, seja na esfera institucional ou social. Sem comunicação não há relação humana. A palavra, o gesto, o olhar, o ato, a inércia ou o silêncio fazem parte do estado de coisas que compõem a comunicação nas relações sociais e institucionais.

A compreensão por meio da decodificação da mensagem que o outro emite está cada dia mais difícil, o que tem tornado a vida um pouco mais complexa. Saber ouvir e poder falar se tornou prática de luxo. O tom das cordas vocais sobe cada vez mais; a sensibilidade auditiva se apresenta cada vez menos. Em muitos casos não deixamos que o outro sequer conclua a frase.

Desde os primórdios, a humanidade tem a necessidade de se comunicar como forma de tornar comum algo, seja uma informação ou uma notícia. Derivada do latim “communicare”, é por meio da qual os seres humanos partilham informações entre si, sendo um ato essencial para a vida em sociedade. Se caracteriza, assim, como uma ferramenta de integração, instrução e desenvolvimento. Os elementos desse processo, emissor, receptor e mensagem, são atravessados pela prática da decodificação. Contudo, um processo que é essencial para a humanidade, é também produtor de sofrimento, quando é feito da forma violenta e ruidosa, causando consequências, em alguns casos, trágicas, que levam a morte de pessoas.

Em muitos casos, quando há juízo de valor ao invés de observação; quando se mistura sentimentos com opiniões; quando se confunde necessidades com estratégias; ou quando os pedidos são substituídos por ameaças, a tendência é de se ter resultados desastrosos, e que em alguns casos podem provocar rupturas pessoais e sociais irremediáveis.

Pensar no aprimoramento da comunicação é pensar na sua qualidade, mas também consiste numa forma de deixar a vida mais leve e fluida. A comunicação não violenta, para além de uma pesquisa capitaneada por Marshall Bertram Rosenberg, se tornou uma técnica potente para o restabelecimento de relações nas quais as parcerias e cooperações foram esgarçadas ou destruídas. Propondo uma comunicação encharcada de empatia e regada de eficiência, coloca na centralidade da questão ações à base de valores compartilháveis.

Técnica de reencontro e de reconstrução de pontes, que tem se espraiado por muitos espaços institucionais e sociais, compreende que há uma continuidade entre as dimensões pessoal e social, e propõe formas de intervenção que se afastam de dinâmicas classificatórias, dominantes e desresponsabilizantes, abdicando de rotulações e enquadramentos.

A metáfora da girafa e do chacal é um bom exercício para nos reconhecermos dentro das relações e comunicações que estabelecemos. A girafa, que foi adotada como símbolo da comunicação não violenta, é o mamífero que possui o maior coração, pois precisa bombear o sangue até a cabeça. Além disso, possui a habilidade de ver longe, alcançar coisas intangíveis e manter-se fora de intrigas. Representa assim a proposta de uma linguagem do coração, lançando um amplo olhar sobre as situações sem julgamentos, estabelecendo afetuosas conexões.

Se propõe a ouvir a dor do outro com empatia. O chacal, noutro giro, caracteriza-se como um animal predador e agressivo. Portador de um uivo estridente que incomoda quem está ao seu entorno. Causador de desarmonia, ele representa o olhar raso sobre as coisas, que indica uma comunicação sem conexão, amplitude e compreensão. Estabelece uma comunicação na forma de julgamentos binários. Elege sua necessidade mais importante do que a do outro. Prioriza a linguagem do medo, culpa, dever e punição, e dessa forma produz relacionamentos abusivos, desgastantes e hostis.

Falar e ser ouvido sem interferências, internas ou externas, é um desafio imenso. Comunicar-se sem medo, vergonha, acusações, fracasso ou ameaças é uma tarefa quase impossível, considerando que sempre estamos aguardando a validação do outro. As necessidades humanas precisam ser satisfeitas, mas de forma que não se atinja o outro. Passar a mensagem e expressar-se sem expressar sentenças, ressaltar sentimentos e necessidades, ao invés de críticas e julgamentos, configura-se o princípio chave da comunicação não violenta, que pode ser a saída para a convivência em uma sociedade mais leve e simples. Por uma sociedade mais girafa e menos chacal.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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