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Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

O velho está morrendo e o novo não pode nascer

Por vezes tem-se a impressão que zerar tudo e começar novamente é a saída. Mas isso não é alternativa

Publicado em 19/07/2021 às 02h00
Mulher com máscara
O tempo provisório precisará ser suficiente para preparar a humanidade para a recepção dp novo . Crédito: karlyukav/Freepik

“O velho está morrendo e o novo não pode nascer” é uma frase de Gramsci atualizada pela principal teórica política feminista da contemporaneidade, Nancy Fraser, ao analisar a crise atual, com a indicação de pistas de como arrancar novos futuros das atuais ruínas. Fraser apresenta essa análise ao se debruçar sobre a crise do neoliberalismo, mas podemos espraiar para as outras crises que acabam por manter nexo indiscutível com aquela.

Isolar crises parece pueril quando a vida é algo interligado e mantém sintonia fina com os assuntos que orbitam o nosso cotidiano. Fazer a leitura dos acontecimentos com a compreensão dos encaixes é elementar para ler as crises e pensar saídas. A dificuldade da questão é que a tensão entre a exigência de ação e o efeito imobilizador próprio desses momentos produz sofrimentos e medos que são naturais.

A frase que intitula uma de suas obras sugere um momento de suspensão ou de hiato histórico, em que pode indicar uma viragem de época. Com muita frequência ouvimos aos quatro cantos que vivemos tempos difíceis ou sombrios, quando se referem ao momento mundial vivenciado, quando conquistas históricas de direitos restam ameaçadas, regimes democráticos forjados na luta são detonados, fundamentalismos tentam substituir liberdades e acúmulos políticos são desidratados.

Tempos difíceis ou sombrios não são novidade para a humanidade, que ao longo do tempo experimentou, no seu devido momento, situações de ausência de direitos e de regimes em que a supressão do outro era a regra. Em tempos longínquos, cada sociedade teve que enfrentar suas dificuldades, mas com os mecanismos dispostos em cada tempo, encontraram a saída, mesmo tendo que, por um tempo, com dificuldade, caminhar no escuro.

Da humanidade ao longo do tempo é esperado que amadureça, para o alcance de um nível de excelência em que o respeito na convivência humana, ao meio ambiente, à dor do outro e às instituições, que são a base dos regimes democráticos, sejam mais do que a regra, sejam algo natural. No entanto, o que temos assistido são flagrantes situações que remontam os tempos sombrios medievos ou da antiguidade, em que as violações eram algo normal.

Em tempos de suspensão, parece que a vida perde sua essência. Seja nas micro ou macro relações, os esgarçamentos parecem inevitáveis, e todas as tentativas de estancamento restam inócuas.

Por vezes tem-se a impressão que zerar tudo e começar novamente é a saída. Mas isso não é alternativa. Não se pode mais se agarrar ao que está morrendo, mas também o novo não pode nascer. Talvez a resposta para o momento que vivenciamos não está mais na sentença do que já passou, mas sim em compreender por que o novo ainda não pode nascer.

De certo algo está impedindo esse nascimento. Essa talvez seja a chave de viragem para sairmos desse momento sombrio e difícil, sim, mas revestido de uma provisoriedade indiscutível.

O tempo provisório precisará ser suficiente para preparar a humanidade para a recepção desse novo, que trará as marcas do passado como memória do que aconteceu, pois isso é necessário para que não se repita as insanidades que ora testemunhamos, mas jamais como algo recalcado que impeça o fruir e fluir da vida de cada um e de todos nós.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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