Em 2019 se tornou “modinha” nas redes sociais a utilização do termo “CPF cancelado” para se referir a situação de que uma pessoa era abatida em uma operação policial ou perseguição. Além da utilização do termo, de denotada falta de respeito com o outro, seja ele o que for, atribui o peso a mais a eliminação do perpetrador de uma ameaça, do que ao salvamento de vítimas em situação de similar correspondência.
Quando está a sociedade submetida às ameaças de uma pessoa ou grupo, os esforços envidados pelo Estado devem ser para salvar o maior número possível, com o foco maior nas vítimas, dentro da moldura dos princípios constitucionais. Além disso, compreender a situação de forma historicamente conglobada, mantendo na centralidade da questão a inteireza da pessoa humana.
Na última semana, mais uma saga de perseguição foi finalizada, para o alívio dos moradores da região do interior de Goiás, mas com um desfecho, diga-se de passagem, longe de ser o mais indicado. A morte do perpetrador de crimes e ameaças, mesmo sendo possível dentro de um script previsto em uma operação policial complexa, deve ser analisada com técnica e cautela, mas jamais, comemorada com o fígado.
A comemoração de desfechos com morte de perpetradores de ameaças não é novidade no mundo inteiro, bem como a celebração da eliminação do outro é acontecimento que acompanha a humanidade desde os primórdios. Guerras, ataques e planos são engendrados, tendo como estratégias razias infindas, em que aqueles que abatem e são abatidos servem de instrumentos a um sistema de poder muito maior. Ao fim e ao cabo, não vislumbro vencedores nessas histórias, somente vencidos.
Quando se comemora a eliminação de outra pessoa, com a supressão da vida nua, para antes de apontar o dedo em riste e promover mais julgamentos, em que o degredo da raça humana seja o ponto de chegada, precisa-se compreender o que se rompeu dentro do ser humano, que para além de ser vetor da ação, celebra como grande feito o desfecho que atinge o valor componente mais intrínseco de uma sociedade, a dignidade da pessoa humana. Aqui reside a essência da frase do Papa Francisco, que certa feita teria dito que “quando se comemora a morte de alguém, o primeiro a ter morrido foi você”.
Desejar ou comemorar a eliminação do outro não deveria, mas infelizmente é fato recorrente em nossa sociedade, em diversas situações, tão permeada por medos e contradições. Contudo, isso deve ser revisto e compreendido em um exercício existencial de entendimento individual, enquanto viventes em uma sociedade na qual a prática relacional é a regra. É preciso voltar a atenção para nós quando isso acontece, numa atitude revisional de pensamentos e ações, sendo compatível com o humano. Não o fazer é ato de perversidade, não somente com o outro, mas conosco.