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Desigualdade

Economia brasileira e a dignidade humana: uma conta difícil de fechar

Recuperação econômica, para realmente repercutir na vida da população, deve andar de mãos dadas com a recuperação em outras áreas: social, segurança, saúde e educação

Publicado em 14 de Junho de 2021 às 02:00

Públicado em 

14 jun 2021 às 02:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Marmita solidária - Grupo de voluntários que distribui refeições para pessoas em situação de rua, em Vila Velha
É preciso se pensar em uma economia solidária e inclusiva Crédito: Fernando Madeira
Na primeira semana do corrente mês, a revista britânica "The Economist" apresentou, em sua capa, uma imagem do Cristo Redentor, símbolo do Brasil no exterior, com um respirador e com o tema: “Década sombria do Brasil”. A matéria abordou as crises que o país tem enfrentado e, ainda em tom de denúncia para o mundo, asseverou que o país vive um declínio “chocante”, após anos de avanço da democracia e destaque para indicadores sociais e econômicos positivos desde 1985, momento da redemocratização.
Revelando uma economia menor do que há 10 anos, a matéria prescreveu que será preciso uma sequência de trimestres robustos, bem melhores do que os publicizados no início deste mês, para se animar com uma recuperação econômica. Contudo, tal recuperação, para realmente repercutir na vida da população, deve andar de mãos dadas com a recuperação em outras áreas: social, segurança, saúde e educação.
A recuperação da economia de um país precisa caminhar ombreada com a qualidade de vida de todas as pessoas, e não somente de um pequeno grupo que se beneficia do trabalho e produção de muitos que ainda vivem em situação de precariedade e no fosso da desigualdade. Uma economia que tenha como fim a dignidade da pessoa humana de forma irrestrita e consiga promover o acesso aos bens e serviços de forma ampla e com total abrangência.
Uma economia que possibilita a acumulação, ao invés de redistribuição, não colabora para a mudança que se espera. Uma economia que permanece absorta por grupos elitizados se revela violadora. É preciso se pensar em uma economia solidária e inclusiva, ao invés de exploratória e excludente. Isso requer mudar estruturas e romper cristalizações.
Enquanto houver, de acordo com o denunciado pela "The Economist", “hospitais lotados, favelas que ecoam tiros, um recorde de 14,7% de trabalhadores desempregados e o número de mortos pela Covid-19 ser um dos piores do mundo”, não havendo a menor sensibilidade da autoridade máxima do país com essa situação, que ainda faz brincadeiras de péssimo tom, mesmo que a economia dê sinais tímidos de recuperação, estaremos longe de recuperar as condições de vida digna para um povo que está cansado de sofrer e viver na corda bamba.
Quanto à travessia para a recuperação da imagem internacional do Brasil, essa será bem mais longa e trabalhosa, devido a inúmeras denúncias nos tribunais internacionais e as posturas de representatividades internas que não colaboram para a reversão desse quadro.
As decisões na área da economia são de natureza existencial de alta importância e complexidade, considerando que concernem à vida de milhões de pessoas, causando impactos que podem comprometer a sua sobrevivência e existência, e por isso, de forma inegociável, deve guardar nexo com a dignidade da pessoa humana, para que não haja o sacrifício de tantos para o desfrute de poucos.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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