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Instituições

Brasil e seus golpes de Estado: o recado da condenação de Bolsonaro

A sentença e a postura do Supremo Tribunal Federal ecoam como um recado solene: a democracia brasileira não tolera mais tentativas de retrocesso

Publicado em 15 de Setembro de 2025 às 03:00

Públicado em 

15 set 2025 às 03:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

O Brasil, ao longo de sua trajetória republicana, tem vivido sob a sombra de golpes de Estado e tentativas de ruptura da ordem democrática. Desde a Proclamação da República, em 1889, passando pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, o golpe militar de 1964 e os episódios recentes envolvendo ameaças à democracia, o país oscila entre períodos de consolidação democrática e graves retrocessos institucionais.
A história política brasileira é marcada por momentos de ruptura institucional. O primeiro grande golpe se deu em 1889 com a Proclamação da República, que depôs a monarquia e instaurou um regime republicano sem consulta popular. Esse evento inaugural estabeleceu um padrão de mudanças bruscas e autoritárias na condução do Estado, frequentemente alheias ao sufrágio universal e à participação cidadã.
No século XX, o Brasil testemunhou uma sucessão de golpes e tentativas de golpe. Em 1930, Getúlio Vargas ascendeu ao poder após a Revolução de 1930, pondo fim à chamada República Velha. Em 1937, instaurou o Estado Novo, uma ditadura centralizadora sob o pretexto de combater ameaças comunistas, dissolvendo o Congresso e limitando as liberdades civis. O golpe de 1964, por sua vez, instituiu uma ditadura militar que perdurou por mais de duas décadas, marcada por censura, repressão e supressão de direitos.
Com a redemocratização em 1985 e a promulgação da Constituição de 1988, o Brasil experimentou um período de estabilidade democrática. Contudo, a memória dos golpes permanece viva, reacendida nos últimos anos por discursos e ações que colocaram à prova a solidez das instituições republicanas.
Em um processo que entrou para os anais da história, o Supremo Tribunal Federal não só condenou os principais articuladores da trama golpista que tentou subverter o resultado das eleições de 2022, como também realizou um julgamento inédito: pela primeira vez desde o fim do regime militar, generais e coronéis de alta patente foram responsabilizados criminalmente por sua participação ativa em ataques à democracia.
O resultado da condenação foi emblemático. O ex-presidente Jair Bolsonaro, junto a assessores civis e militares, foi considerado culpado por instigar e arquitetar atos antidemocráticos, que culminaram na tentativa de golpe. Generais e coronéis envolvidos foram condenados à perda de patente, prisão e inabilitação para cargos públicos, marcando um precedente inédito e decisivo na história política do país.
O voto do ministro Alexandre de Moraes, relator do processo, destacou que a tentativa de ruptura não se deu mais por tanques nas ruas, mas pela corrosão institucional, manipulação das massas e desinformação. Ao responsabilizar militares de alta patente, o STF emitiu um sinal inequívoco de que nem mesmo os segmentos historicamente protegidos por privilégios estão acima da lei e da Constituição.
A condenação de generais e coronéis envolvidos na trama revela um avanço institucional. Pela primeira vez, membros das Forças Armadas respondem judicialmente por ataques ao regime democrático, rompendo o ciclo de impunidade que historicamente acompanhou intervenções militares no Brasil. Esse julgamento representa um divisor de águas: as instituições reafirmaram que a defesa da democracia é tarefa de todos e que a tutela militar sobre o poder civil não tem mais espaço no Brasil contemporâneo.
Julgamento da trama golpista pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF)
Julgamento da trama golpista pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) Crédito: Antonio Augusto/STF
A sentença e a postura do Supremo Tribunal Federal ecoam como um recado solene: a democracia brasileira não tolera mais tentativas de retrocesso. Os fantasmas das ditaduras, que tantas vezes assombraram e interromperam o ciclo democrático nacional, encontram agora o robusto contraponto das instituições vigilantes, do respeito ao voto popular e da força da Constituição.
Para as futuras gerações, o julgamento dos responsáveis pela trama golpista e a condenação inédita de militares de alta patente será lembrado como o momento em que a democracia avançou sobre as sombras do autoritarismo, fez valer a supremacia do Estado de Direito e reafirmou que a liberdade, conquistada a duras penas, não será mais facilmente sequestrada pelos artífices da ruptura.
A estabilidade democrática no Brasil permanece como uma conquista diária, defendida por instituições que, desta vez, souberam responder com firmeza a seus maiores desafios. Eis o aviso que se firma: a democracia, no Brasil, está pronta para proteger-se das sombras do passado.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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