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Tarcísio Bahia

Um pouco da história do saneamento nas cidades brasileiras

No Brasil, são bastante conhecidas as imagens que o pintor francês Jean-Baptiste Debret fez do Rio de Janeiro do início do século XIX

Publicado em 01 de Outubro de 2026 às 04:30

Públicado em 

01 out 2026 às 04:30
Tarcísio Bahia

Colunista

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Aqueles que já tiveram a oportunidade de visitar um palácio europeu renascentista, cujos detalhes de fascinante opulência encantam qualquer visitante do século XXI, não imaginam que, contraditoriamente, tais construções nem sequer possuíam tubulação para esgotamento sanitário, de tal modo que as fezes e urinas dos ocupantes eram eliminadas de modo manual por serviçais.


No Brasil, porém, são bastante conhecidas as imagens que o pintor francês Jean-Baptiste Debret fez do Rio de Janeiro do início do século XIX, onde se viam escravos transportando os excrementos dos seus patrões em caixotes, para serem jogados fora nas margens da Baía de Guanabara.


Posteriormente as casas brasileiras adotaram o “quartinho”, uma edícula afastada da residência propriamente dita, que abrigava uma espécie de sanitário sobre uma fossa, onde as pessoas evacuavam e urinavam.

Aquarela pintada por Jean-Baptiste Debret
Aquarela pintada por Jean-Baptiste Debret que mostra escravos fazendo transporte do esgoto Reprodução/Ibram

Na verdade, somente na segunda metade do século XIX foi iniciada a construção do primeiro sistema urbano de esgotamento sanitário. Isso ocorreu na cidade de Londres após surtos de cólera, que provocaram milhares de mortes.


Hoje as edificações já possuem banheiros tanto quanto as cidades são dotadas de redes de esgoto. As fezes e a urina coletadas são então conduzidas para locais onde serão tratadas para que a água possa ser devolvida à natureza, permitindo seu reúso.


Neste ponto cabe dizer que a natureza sempre teve capacidade de regenerar nossos excrementos atirados à água. Isso se dá por conta de bactérias e microrganismos que se alimentam do esgoto lançado em rios e mares, e ao longo da história esse processo regenerativo natural dava conta de sanear a água.


Contudo, a regeneração é lenta, tem seu próprio tempo, de tal modo que o lançamento do esgoto deve ocorrer longe dos mananciais que fornecem água doce para o consumo humano. Ou seja, com o aumento populacional, principalmente no meio urbano, a carga de dejetos humanos concentrada tornou inviável o uso desse sistema natural de saneamento.


Hoje, as Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) são utilizadas para tal finalidade. O sistema prevê três etapas de tratamento: o primário, que usa tanques para separar gordura e materiais decantáveis; o secundário, que utiliza microrganismos para dissolver a matéria orgânica; e, por fim, o terciário, que desinfecta a água para que ela retorne ao meio ambiente.


Mas existe também outro sistema que é o emissário submarino: uma tubulação que lança o esgoto no oceano, suficientemente distante da costa, deixando que o mar faça o trabalho de diluição e dispersão da água poluída. Como o nome já indica, essa é uma solução que só pode se dar em cidades litorâneas.


Considerando que grande parte da população brasileira vive em cidades costeiras, o emissário submarino é uma opção a ser considerada. Os cariocas, por exemplo, já estão há muito acostumados com o emissário submarino de Ipanema, instalado justamente numa das praias mais famosas da cidade.


Além disso, antes do mar receber o esgoto, ocorre um pré-tratamento, retirando material físico (objetos em geral, como garrafas plásticas, pedaços de madeira, etc.), além de óleos e graxas.

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Enfim, se no Brasil atual ainda lidamos com problemas decorrentes da falta de saneamento, não é por questão tecnológica, mas pela ausência de políticas públicas efetivas que queiram resolver essa situação que é fundamental para a saúde das pessoas e da própria natureza.


Mesmo numa cidade como Vitória, sempre destacada como uma das melhores para se viver no país, onde ainda se vê um jogo de empurra entre prefeitura e a Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan) no caso da praia da Guarderia, que é um dos cartões-postais da capital, então dá pra imaginar o não acontece em outros locais menos nobres.


Na Serra, município vizinho, o imbróglio é o mesmo, só mudando alguns dos atores, pois além da própria prefeitura local, temos também a Cesan e a Serra Ambiental (empresa concessionária licenciada para cuidar do saneamento municipal). E quem sofre, é claro, são os cidadãos, inclusive aqueles que curtem as praias, como a bucólica Manguinhos.


Água escura e o mau cheiro são apenas alguns dos aspectos que podemos notar, mas o risco mesmo é o de contaminação de doenças infecciosas e parasitárias.


Daí que, infelizmente, aquela imagem pintada por Debret 200 anos atrás ainda não é muito diferente do cenário que encontramos hoje em diversas partes do Brasil atual, incluindo o litoral do Espírito Santo. 

 

Tarcísio Bahia

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Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaço

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