Há momentos em que a história exige coragem para abandonar velhas muletas e ousadia para apostar em novos caminhos. O Espírito Santo vive exatamente esse instante. A reforma tributária de 2023 decretou o fim dos incentivos fiscais subnacionais a partir de 2033. Em menos de uma década, o estado perderá a principal ferramenta que sustentou sua competitividade por anos. O que virá depois?
O plano “ES 500 anos”, que projeta metas até 2035 — quando o Espírito Santo completará 500 anos de colonização —, já aponta o caminho: uma economia mais complexa, mais inovadora e menos dependente de renúncia fiscal.
Mas, para chegar lá, será preciso reorientar profundamente a política de desenvolvimento regional, migrando de uma lógica de atração passiva para a competitividade sistêmica, e iniciando essa travessia já em 2027.
Durante décadas, o Espírito Santo se apoiou em incentivos fiscais para atrair empresas e investimentos. Essa estratégia funcionou, mas tinha prazo de validade. A partir de 2033, não haverá mais como competir oferecendo vantagens tributárias subnacionais.
O risco é claro: sem uma nova política de desenvolvimento regional, o estado pode perder dinamismo e ver sua estrutura produtiva se enfraquecer.
A pergunta que se impõe é: vamos esperar o fim dos incentivos para agir ou vamos começar agora a construir uma economia que se sustente por sua própria complexidade, produtividade, sustentabilidade e inovação?
Essa reorientação precisa se apoiar em três pilares fundamentais:
Atração de empreendimentos estratégicos: capitaneada pela Nova-ES, que deve atuar com diplomacia empresarial, trazendo grandes grupos nacionais e internacionais, preferencialmente empreendimentos que possibilitem o maior adensamento das cadeias produtivas locais. Casos como a chegada da GWM mostram que o Espírito Santo pode ser destino de investimentos de porte global;
Adensamento de cadeias produtivas: executado por Fapes, Banestes e Bandes, apoiando empresas locais em projetos de produtividade, inovação e sustentabilidade. O objetivo é sofisticar setores já existentes e criar novos elos produtivos;
Integração com políticas federais: aproveitar instrumentos como a Nova Indústria Brasil, o BNDES, a Finep, Embrapii, Lei do Bem, BNB, Sudene — com forte impacto na atração de investimentos para o interior e para o norte/noroeste capixaba —, dentre outros, para ampliar escala e reduzir custos de financiamento.
E há um pilar transversal que deve atravessar todos os demais: apoiar e financiar projetos de maior complexidade, produtividade, inovação e sustentabilidade.
A nova política deve privilegiar atividades de maior complexidade econômica, aproveitando as vantagens competitivas já consolidadas do estado (como a infraestrutura portuária e a base mineral/metalmecânica) para gerar valor agregado e encadear cadeias produtivas. Isso significa apostar em:
Setor automobilístico: uma aposta realista e promissora, aproveitando a chegada de grupos como a GWM e a possibilidade de desenvolver fornecedores locais;
Indústria de transformação avançada: setores como metalmecânico e rochas ornamentais, já consolidados, mas que precisam de inovação e sofisticação;
Serviços intensivos em conhecimento: tecnologia da informação, design, engenharia e consultoria especializada;
Logística e comércio exterior: ampliar a competitividade por meio de investimentos em infraestrutura e da maior adoção de tecnologias como big data, internet das coisas e inteligência artificial;
Agroindústria sofisticada: café especial e alimentos processados de alto valor agregado;
Turismo: fomento a mais equipamentos turísticos capazes de atrair visitantes de outros países e regiões, aumentar o consumo interno e gerar empregos em serviços qualificados;
Tecnologias de baixo carbono: energia renovável, biocombustíveis e soluções ambientais.
Esses setores não apenas tendem a aumentar a produtividade e a complexidade, mas também posicionam o Espírito Santo em cadeias globais de valor.
O crédito subsidiado e direcionado será o principal instrumento dessa política. Mas não basta liberar recursos: o diferencial desta nova fase é condicionar o acesso estritamente a metas claras de inovação, produtividade, sustentabilidade, complexidade e geração de empregos qualificados, garantindo que o subsídio compre transformação estrutural, e não apenas localização geográfica.
Aqui entram os bancos públicos estaduais e os recursos que podem ser acessados:
Banestes e Bandes devem ser os operadores financeiros, transformando recursos em linhas de crédito inteligentes e acessíveis;
O Fundo Soberano do Espírito Santo (Funses) pode reduzir o custo do crédito, tornando o investimento produtivo mais barato;
O Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional (FNDR), criado pela reforma tributária, pode financiar projetos estruturantes — logística, energia renovável, digitalização — que são a base para uma economia mais complexa.
O papel das instituições:
Governo estadual: coordenador da política, articulando atores locais e federais;
Nova-ES: agência de atração de investimentos, responsável por trazer empreendimentos estratégicos e atuar na diplomacia empresarial;
Bancos públicos estaduais: financiadores de projetos empresariais com crédito subsidiado e condicionado;
Fapes: financiadora da inovação, com recursos do Funcitec, apoiando projetos de empresas capixabas em setores de maior complexidade;
Universidades públicas e privadas: formadoras de mão de obra qualificada e produtoras de pesquisa aplicada;
Associações empresariais: suporte técnico e institucional a essa política de desenvolvimento regional;
Setor privado: coprodutor da política, investindo em inovação, sustentabilidade e produtividade.
O setor produtivo local precisa entender e acessar mais os incentivos oferecidos pela Sudene no norte e noroeste do estado e a Lei do Bem, voltada para projetos de inovação em geral. Esses instrumentos federais ainda são subutilizados no Espírito Santo, mas podem ser decisivos para financiar inovação e reduzir custos de investimento.
Se essa reorientação não começar em 2027, o Espírito Santo corre o risco de chegar a 2033 sem alternativas, preso a um modelo que se esgotou. O resultado seria uma economia menos dinâmica, mais vulnerável e incapaz de competir em cadeias globais.
Mas se começarmos agora, teremos tempo de maturar projetos, consolidar cadeias produtivas e chegar a 2035 com uma economia robusta, inovadora e sustentável.
O futuro do Espírito Santo não será dado — será construído. E a construção começa agora, com coragem para abandonar velhas muletas e ousadia para apostar em novos motores de desenvolvimento.
A crônica da economia capixaba, daqui a dez anos, poderá ser escrita de duas formas. Na primeira, seremos lembrados como um estado que perdeu a chance de se reinventar. Na segunda, como um território que soube transformar a ameaça em oportunidade, reinventando sua política de desenvolvimento regional e se tornando referência em inovação e sustentabilidade.
A escolha está diante de nós. O tempo é curto, mas ainda é suficiente.