Ajuste as velas: planejamento é previsibilidade com lastro na realidade
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Ajuste as velas: planejamento é previsibilidade com lastro na realidade
Você vai perceber a verdade por trás daquela famosa frase de um ex-presidente norte-americano, Dwight D. Eisenhower: “Planos não são nada, planejar é tudo”
“O pessimista reclama do vento, o otimista espera que ele mude, o realista ajusta as velas”. A frase cujo autor eu desconheço provavelmente não foi escrita para fins de definição de lógicas de mercado, mas é inegável que ela cai como uma luva. Porque eu não vejo maneira melhor de explicar a função de um planejamento do que essa.
Enquanto muitas empresas o desacreditam por entenderem que o planejado nunca coaduna com o realizado, eu penso exatamente o contrário: não coaduna porque foi mal planejado (porque variações de resultados dependendo do cenário já deveriam ser previstas) ou então mal executado, porque entre os verbos planejar e fazer há um outro mais imperativo: agir.
Há de se considerar ainda que planejamento não deve ser estático, mas ajustável dentro de novas realidades que se apresentem, portanto, não realizar o planejado pode também ser fruto de não adaptar o plano para o alcance do que foi proposto.
Seguindo a analogia do título, você não precisa adivinhar para onde vai o vento, mas seu planejamento precisa considerar a possibilidade de que ele possa vir a mudar de rota e de intensidade. Os planejamentos financeiros muitas vezes são preparados de uma maneira superficial, com desídia, sem lastro na realidade, repletos de otimismo e com baixa criatividade estratégica.
O resultado é uma tentativa de “adivinhar o futuro” que evidentemente não se torna real. Vira mais uma aposta do que uma estratégia. O planejamento não tem a pretensão de acertar o que vai acontecer, mas de prever o que pode acontecer em diversos cenários. Não é nenhuma adivinhação e também não é profecia. É previsibilidade de cenários.
Um planejamento que realmente funcione precisa se basear em algo chamado modelagem financeira. É um tipo de “previsão” — sempre considere essas palavras com cuidado — que, através da utilização de parâmetros inteligentes, estabelece diferentes cenários e as possíveis consequências de cada um.
A comparação entre cenários permite uma visualização daquilo que você quer para a empresa e do que é mais factível, ou seja, que tem mais probabilidade de se tornar realidade.
Só que isso não pode ser construído com achismos. Um bom modelo precisa ser todo amarrado em si mesmo, com diversos fatores impactando um ao outro de modo que os efeitos de qualquer mudança reflitam no resto do negócio. Por exemplo, se o cenário analisado é de aumento no faturamento, automaticamente haverá outras áreas a serem afetadas. Faturar mais significa que a empresa precisa de mais material ou equipe para continuar rodando, o que traz novos custos de produção, impostos e o que mais estiver relacionado com o funcionamento daquele negócio.
Aqui está a grande diferença quando observamos o planejamento que tantas empresas fazem e acreditam que não ajuda em nada. Não é que não sejam feitas análises preditivas, mas quando elas se concentram apenas em um ou alguns poucos dados, o resultado não dará uma visão real do que esperar na prática.
Imagine comigo que um varejista faz uma projeção de crescimento. O aumento das vendas indica essa possibilidade e ele quer trabalhar para que isso aconteça rapidamente. Parece um bom cenário, certo? Só que pode ser um problema gigante se ele não tiver um modelo indicando todos os desdobramentos desse crescimento.
Se ele quiser ir de um faturamento de um milhão por mês para 10 milhões, por exemplo, então ele precisa aumentar o estoque em 10 vezes. E isso antes de qualquer venda, já que o cliente compra o que vê. Dependendo do setor do varejo, o ciclo de fornecimento dos produtos pode até ser maior do que um mês, então os custos precisam aguentar um ritmo que não necessariamente condiz com o que existe em caixa.
Resultado: o planejamento indicou que o crescimento era possível, mas não informou sobre os demais efeitos e o negócio quebrou.
NavegaçãoCrédito: Pixabay
Com a modelagem, dá para tomar decisões mais assertivas. Nesse caso, a meta poderia ser adaptada; ao invés de um mês, talvez um ano ou mais, para aguentar o tranco. Ou, ainda, pode se iniciar uma busca por investimento.
Vale dizer que isso também funciona na ordem contrária: além de se preparar para o futuro provável, a modelagem permite se preparar para o futuro desejado. Se o interesse é ter mais clientes, ou vender mais, ou reduzir custos, enfim, como você chega lá? A comparação de cenários ajuda a ver todas as variáveis para traçar uma rota.
É aí que você vai ter um plano real. E também vai perceber a verdade por trás daquela famosa frase de um ex-presidente norte-americano, Dwight D. Eisenhower: “Planos não são nada, planejar é tudo”. Então sente, estude e planeje.
Ajuste as velas. Vai valer a pena.
Rodrigo Miranda
É CEO e fundador da VPx Company, consultoria de negócios e de educação executiva, e presidente do conselho de administração da SAF (Sociedade Anônima do Futebol) do Rio Branco. Fundou os apps de entregas Shipp e Packk, atuais Americanas Delivery, e a rede de lojas autônomas Zaitt, adquirida pela Sapore S/A