Em 2025, testemunhamos a cobertura jornalística de desfiles históricos em celebrações dos oitenta anos do fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Foram desfiles grandiosos de celebração da vitória que refletiram leituras nacionais atualizadas daquele conflito e de suas consequências mundiais ainda presentes.
Pensei em como deveria abordar o tema e resolvi me apoiar em um livro que ganhou uma considerável repercussão internacional. Trata-se de ‘A ordem do dia’, de Éric Vuillard e que foi publicado pela Planeta, em 2019. O texto começa com a reunião de 20 de fevereiro de 1933 entre grandes líderes industriais alemães e dirigentes do Partido Nazista.
Na pauta da reunião constava a decisão empresarial de investir na campanha de Hitler e de seus companheiros. Dificilmente saberemos qual teria sido a consequência de os líderes empresariais não terem apoiado financeiramente o Partido Nazista. Sabemos o que veio depois desse apoio.
Descrevendo a reunião, Vuillard apontou que a proposta de Hitler se resumia ao fato de que era preciso “acabar com um regime fraco, afastar a ameaça comunista, suprimir os sindicatos e permitir que cada patrão fosse um Führer em sua empresa”. Terminada a exposição, o financista Hjalmar Schacht disse: “E agora, senhores, ao caixa!”
Os empresários presentes na reunião estavam acostumados com essa iniciativa. Segundo Vuillard, “a corrupção é um item incompreensível no orçamento das grandes empresas, tendo vários nomes: lobby, doação, financiamento de partidos”. A reunião selou o pacto patronal alemão com o nazismo.
Entre alguns grandes nomes da indústria que apoiaram o nazismo, Vuillard citou Basf, Bayer, Agfa, Opel, IG Farben, Siemens, Allianz e Telefunken. Conforme o autor destacou, “são os nossos carros, nossas máquinas de lavar, nossos produtos de entretenimento, nossos rádios-relógios, o seguro da casa, a bateria de nosso relógio de pulso”.
A política de apaziguamento de capitalistas europeus com o nazismo também é objeto de discussão no livro. Joachim von Ribbentrop, por exemplo, enquanto embaixador em Londres, foi locatário de Neville Chamberlain, primeiro-ministro conservador britânico.
Em relação às proibições impostas pelo Tratado de Versalhes para a fabricação de armamentos, Vuillard revelou que os “alemães os produziram a partir de intermediários de fachada, no exterior”. Nesse sentido, o autor ressaltou que “a engenharia financeira serve desde sempre para as manobras mais nocivas”.
De acordo com Vuillard, “não devemos acreditar que tudo isso pertence a um passado distante”. Fortunas que se beneficiaram do regime nazista ainda existem. Conglomerados poderosos, como é o caso citado do ThyssenKrupp, são partes do jogo econômico mundial das cadeias de valor e da exploração de trabalhadores na periferia do sistema capitalista.