Noventa anos após a publicação de ‘A teoria geral do emprego, do juro e da moeda’, John Maynard Keynes continua sendo um autor que desafia governos e diversos tipos de leitores. Seu livro, publicado em 1936, expôs a fragilidade psicológica que sustenta o capitalismo e mostrou que, sem coordenação pública, o pleno emprego é mais promessa do que realidade.
Revisitar Keynes é reconhecer que a economia global, incluindo o Brasil, ainda vive sob a sombra da incerteza que ele descreveu com uma precisão desconcertante. Keynes rompeu com a ideia de que os agentes econômicos tomam decisões com base em cálculos racionais e previsões confiáveis.
Segundo Keynes, o futuro é marcado por uma incerteza radical. Desconhecemos as probabilidades dos resultados futuros e tampouco conseguimos imaginar todos os cenários possíveis. Essa condição torna ilusória a crença de que investimentos, consumo e decisões empresariais seguem apenas modelos matemáticos estáveis.
Quando a confiança dos agentes econômicos é abalada, seja por crises financeiras, tensões políticas ou choques externos, o investimento privado recua, o desemprego cresce e a economia entra em espiral negativa. A instabilidade não é uma exceção; ela é parte constitutiva do sistema de mercado.
Para sobreviver a essa incerteza, os agentes econômicos constroem convenções em formatos de narrativas, hábitos e expectativas compartilhadas que permitem agir como se o futuro fosse previsível. São essas convenções que sustentam as decisões de investimento, as avaliações de risco e até a crença de que os preços dos ativos seguirão certas trajetórias.
Convenções são frágeis. Quando são desmentidas pela realidade, como ocorreu em 2008, na pandemia de Covid-19 ou em crises cambiais, o mercado perde o seu lastro psicológico. A confiança evapora e a economia trava. Keynes enxergou esse mecanismo com clareza. O capitalismo depende dos estados de espírito, não apenas de bons fundamentos matemáticos.
Ao reconhecer a volatilidade das expectativas privadas, Keynes defendeu a socialização dos investimentos. Não se trata de estatizar a economia, mas de admitir que certos investimentos, como, por exemplo, infraestrutura, inovação, transição energética e educação, são estratégicos demais para depender dos humores dos mercados.
Quando o investimento privado oscila, cabe ao Estado sustentar o nível de gasto agregado necessário para garantir o “pleno emprego”. O liberal Keynes formulou uma proposta de estabilidade. Ele propôs coordenar o investimento público para reduzir a incerteza e criar um ambiente no qual o setor privado possa operar com mais segurança.
Em um país como o Brasil, onde a volatilidade econômica é recorrente e os gargalos estruturais persistem, a mensagem keynesiana é especialmente atual. A socialização dos investimentos deve ser entendida como uma ferramenta civilizatória.
Keynes continua nos oferecendo uma lição simples e profunda. Uma sociedade que deseja prosperar precisa ter coragem de planejar o futuro, e não apenas reagir a ele. Em tempos de incerteza global, essa é uma reflexão oportuna. Afinal, o investimento público é essencial para estabilizar expectativas e orientar o desenvolvimento.
Segundo Keynes, no capítulo 24 do seu clássico de 1936, “os dois principais defeitos da sociedade econômica em que vivemos são a sua incapacidade para proporcionar o pleno emprego e a sua arbitrária e desigual distribuição da riqueza e das rendas”. Ainda se trata de uma afirmação muito atual.
Investir produtivamente cria renda. Keynes demonstrou que a poupança é determinada pelo montante de investimento e que, portanto, ela cresce gradualmente como efeito de boas condições de crédito. Para países subdesenvolvidos, os repasses inflacionários do câmbio devem ser sempre observados.
A grande contribuição de Keynes foi deslocar o foco analítico para as variáveis agregadas e para as interações entre produção, emprego, investimento, moeda e demanda. Ele abriu o caminho para a macroeconomia. A realização da produção depende de decisões interdependentes de gasto tomadas por empresários, governo e famílias.
Conforme demonstrou Keynes, o desemprego poderia ser involuntário e persistente. Nesse sentido, a preferência pela liquidez de uma minoria abastada pode ainda ter consequências antissociais para a economia, pois recursos financeiros deixam de fluir para o investimento produtivo, enfraquecendo a demanda e reduzindo a produção e o emprego.
A articulação entre demanda efetiva, incerteza e preferência pela liquidez constitui um dos fundamentos para compreender a instabilidade inerente ao capitalismo. A intervenção estatal não representa a interferência exógena em um sistema supostamente autorregulado. Ela integra o mecanismo de estabilização das economias capitalistas, desempenhando papel estrutural na coordenação macroeconômica e na sustentação do nível de atividade.