A discussão sobre a nova onda de nacionalizações, destacada por Nicholas Mulder, na edição de junho da revista Finance & Development do Fundo Monetário Internacional (FMI), revela um fenômeno que ultrapassa a simples disputa entre Estado e mercado. O que está em curso é a reconfiguração estrutural da ação estatal diante de riscos que se tornaram globais, complexos e recorrentes.
Nacionalizações deixam de ser instrumentos ideológicos e passam a ser mecanismos de gestão de vulnerabilidades sistêmicas. A aceleração das nacionalizações não pode ser compreendida apenas como reação a crises econômicas, pois ela decorre de uma combinação de fatores, como instabilidade geopolítica, transição energética, fragilidade das cadeias globais e crescente competição por recursos estratégicos.
Em vez de buscar a eficiência, os governos buscam resiliência e tal fato altera profundamente a racionalidade das políticas públicas. O professor observa que setores como energia, mineração, infraestrutura e tecnologia se tornaram arenas de disputa estratégica.
A nacionalização, nesse cenário, funciona como uma blindagem contra os choques externos e como instrumento de controle sobre ativos considerados essenciais para a segurança nacional.
Historicamente, as nacionalizações ocorreram em ambientes de menor integração financeira. O capital é altamente móvel atualmente e mesmo assim os Estados estão optando por intervir. Em síntese, a lógica da segurança está superando a lógica da eficiência.
Nacionalizações contemporâneas não buscam substituir o mercado, mas reordenar o espaço econômico para reduzir dependências externas e aumentar a capacidade de resposta a crises. Trata-se de uma política de mitigação de riscos, na avaliação do acadêmico da Universidade Cornell, não da expansão estatal indiscriminada.
Um dos aspectos mais relevantes da análise de Mulder é a constatação de que a nova onda de nacionalizações implica na reorganização da globalização em novos blocos. Nesse sentido, a integração será mediada por afinidades geopolíticas.
Portanto, a nova onda de nacionalizações deve ser interpretada como parte de uma transformação mais ampla. O Estado assume papel ativo na proteção de sistemas econômicos vulneráveis. O novo processo é de adaptação a um mundo de crises mais frequentes e interdependentes.
O nosso debate público precisa ir além da simplória dicotomia Estado versus mercado. A questão central é a capacidade institucional de gerir ativos estratégicos com eficiência, transparência e visão de longo prazo. Nacionalizar pode ser algo necessário; administrar bem será indispensável.