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Análise

Desigualdades sociais extremas: a América Latina e seu labirinto

Região passa, periodicamente, por “eternos retornos” ou “fugas para frente”, processos que evitam que os seus problemas estruturais sejam enfrentados

Publicado em 26 de Julho de 2021 às 02:00

Públicado em 

26 jul 2021 às 02:00
Rodrigo Medeiros

Colunista

Rodrigo Medeiros

América Latina
As reformas regressivas no Brasil, desde 2016, refletem a perspectiva labiríntica do “eterno retorno” Crédito: wirestock/Freepik
Chamou a minha atenção recentemente um artigo de César Niño, professor da Universidade de La Salle (Colômbia). Publicado no site “Latinoamérica21”, em 18 de julho, o artigo de opinião versa sobre o crime pandêmico e os Estados distraídos na região da América Latina.
Restam poucas dúvidas de que a América Latina é uma região violenta. Segundo apontou Niño, “entre as 50 grandes cidades mais violentas e inseguras do mundo, 42 são latino-americanas e, enquanto a região representa 13% da população mundial, 40% dos homicídios violentos do mundo ocorrem aqui”. Em síntese, há excessos de violência e crime na América Latina.
Niño citou que “no início da pandemia, como esperado, houve um interessante declínio da criminalidade tradicional na região, transferindo a violência e os principais crimes para dentro de casa”. O crime tradicional foi afetado pelas necessidades de isolamento social. Crimes digitais, por sua vez, cresceram mais de 70% na região.
De acordo com o professor, “enquanto as forças de segurança patrulhavam as áreas rurais e urbanas fazendo um trabalho atípico de saúde, grupos e organizações criminosas fortaleceram suas capacidades de governança em vários territórios”. México, Colômbia e Brasil são citados como exemplos.
A hipótese de trabalho do professor é que a distração sanitária dos Estados liberou caminho para os criminosos construírem legitimidade em alguns territórios latino-americanos, nos quais essas organizações já estavam estabelecidas. Tal fato ocorreu sob um elevado custo social.
Conforme ponderou Niño, “algumas das estruturas armadas à margem da lei impuseram suas próprias medidas de isolamento e aproveitaram a precariedade das políticas públicas estatais para dar proteção à população, administrar a justiça, prevenir o contágio, construir rotas de acesso e tecer relações subterrâneas com a população”.
Paradoxalmente, afirmou Niño, “enquanto os tomadores de decisão nos diferentes Estados continuam a ler o contexto de segurança de seus países em termos policiais e militares, os criminosos entendem que a legitimidade é um recurso fundamental em sua estratégia de sobrevivência”.
A América Latina é uma região formada em um longo processo de colonização de exploração, na qual a escravidão criou cicatrizes profundas. Inserida historicamente de forma subordinada na divisão internacional do trabalho, a região passa, periodicamente, por “eternos retornos” ou “fugas para frente”, processos que evitam que os seus problemas estruturais sejam enfrentados.
Detentora de desigualdades sociais extremas, a América Latina não tem conseguido escapar do seu labirinto. Países especializados em atividades malthusianas permanecerão pobres e com elevada concentração de renda, enquanto países especializados em atividades schumpeterianas serão capazes de elevar o nível de seus salários e atingir padrões de vida maiores.
Do ponto de vista da sustentabilidade ambiental, a especialização malthusiana é perigosa porque ela está vinculada a rendimentos decrescentes de escala, a círculos viciosos de pobreza e a grandes pressões sobre os recursos naturais.
As reformas regressivas no Brasil, desde 2016, refletem a perspectiva labiríntica do “eterno retorno”. O país precisa de uma estratégia de desenvolvimento que use a política industrial inteligentemente para coordenar as firmas de diferentes indústrias e setores para uma contínua atualização (upgrading) tecnológica e industrial.
Seguindo essa estratégia gradualista de complexificação econômica, os governos devem investir em infraestrutura e fortalecer as instituições voltadas para o desenvolvimento econômico e social.
Tende a ser mais eficiente buscar trabalhar a partir das estruturas produtivas existentes para buscar coordenar e induzir a atualização tecnológica e industrial, ajudando as empresas domésticas a romper as barreiras de concentração de mercado impostas pela posição dominante de países ricos em mercados de maior sofisticação tecnológica. Esse é o caminho para o desenvolvimento econômico e social. Não devemos confiar em atalhos e tampouco nas ilusões neoliberais.

Rodrigo Medeiros

E professor do Instituto Federal do Espirito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade.

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