Desde o ano passado, já estava bem claro que havia uma desaceleração contratada no horizonte para a economia brasileira. Com a economia se recuperando lentamente em 2021, a partir da reabertura de atividades, o Banco Central (BC) iniciou uma série de elevações da taxa básica de juros. Conforme destacou recentemente o portal de notícias G1, temos “a maior taxa de juros reais do mundo”.
O G1, em matéria publicada no dia 3 de maio, mostrou que “a taxa básica de juros brasileira (Selic) não sobe desde junho de 2022, mas o país continua no topo do ranking global de juros reais”. Os efeitos dessa política monetária ultraortodoxa se fazem sentir em termos dos desempenhos da economia e do mercado de trabalho.
Em artigo anterior citei o documento “Depois do desmonte”, do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), que trouxe o balanço do desmonte das políticas públicas em todos os programas sociais e ambientais no Brasil entre 2019 e 2022. Conforme publicou o Inesc, “foram 4 anos de ajuste fiscal, à custa de pobreza, fome e retrocessos nos direitos humanos”.
De acordo com o Inesc, “passados os 100 primeiros dias do mandato do presidente Lula, ainda é grande a dificuldade para superar o cenário de terra arrasada detectado no relatório de transição do governo”. A insegurança alimentar avançou para mais da metade da população brasileira e a fome atingiu 33 milhões de pessoas em 2022, com um quadro de precarização laboral, de informalidade próxima de 40%, mesmo após a reforma trabalhista de 2017.
Ainda citando o Inesc, destaquei então que “a política de ajuste fiscal imposta nos últimos 4 anos não só se provou ineficiente para a recuperação da economia, como também aumentou a injustiça social, ambiental, climática, racial e de gênero”. Em síntese, a “estratégia de subfinanciar o Estado, elevar a taxa de juros, ignorar uma tributação progressiva e percorrer regras fiscais restritivas só agravou as desigualdades”.
Outra matéria do G1, assinada por Raphael Martins, publicada no dia 4 de maio, revelou que o BC brasileiro teria “critérios de espera” para baixar os juros. Em um momento em que a economia brasileira segue a marcha para a desaceleração, a matéria apontou para o fato de que “o BC poderá voltar a aumentar a Selic em outro momento, se necessário”. Está difícil sustentar que tal critério se justifique a partir de uma inflação de demanda.
A matéria escutou o economista André Roncaglia, professor da Universidade Federal de São Paulo, que citou o desemprego e o episódio da paralisação de montadoras de automóveis como mostras de desaceleração econômica e da ociosidade industrial. Na crítica aos critérios do presidente do BC, Roberto Campos Neto, o professor afirmou que “até algum tempo atrás, era a inflação que estava em nível muito elevado, agora, (ele) mudou para expectativas que não estão ancoradas”.
“Os elementos técnicos que Campos Neto deveria seguir - de acordo com o que prega o estatuto do regime de metas de inflação -, não estão sendo seguidos”, declarou Roncaglia. Não cabe ao BC querer ditar termos de como deve ser a política fiscal para um governo democraticamente eleito. O Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, já sinalizou para a desaceleração econômica brasileira e para um desempenho aquém da economia mundial no horizonte.
O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), divulgado para o mês de abril pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), acumulou queda de 2,17% em doze meses. O Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), por sua vez, acumulou queda de 4,53% para o mesmo período, com destaque para a queda de 8,94% dos preços das matérias-primas brutas. O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) registrou desaceleração, mas seguiu pressionado pelos reajustes de preços administrados, como gasolina, energia e medicamentos.
O IBGE divulgou números mostrando que o desemprego cresceu no primeiro trimestre de 2023 em relação ao último trimestre do ano passado e que a taxa composta de subutilização laboral se manteve alta, em 18,9%. O nível da ocupação, percentual de pessoas ocupadas na população em idade de trabalhar, estimado em 56,1%, caiu frente ao trimestre anterior (57,2%). O rendimento médio real habitual permaneceu praticamente inalterado na mesma comparação.
Publicado pela S&P Global, em 4 de maio, a pesquisa PMI (índice de gerentes de compras) mostrou para o Brasil que “enquanto a produção industrial contraiu a uma taxa mais acentuada em abril, o crescimento da atividade de serviços aumentou e contribuiu para uma nova expansão da produção agregada”. O setor de serviços, de baixa produtividade intrínseca, impulsionará a recuperação econômica de forma sustentada?
Conhecemos o baixo fôlego desse setor para sustentar um bom desempenho global da economia brasileira, que sofreu as consequências da desindustrialização prematura, algo que já abordei em artigos anteriores. Ademais, de acordo com a pesquisa citada, “as pressões sobre os preços permaneceram mais proeminentes na economia de serviços, apesar de terem recuado a partir de março”. Desejamos apenas outros voos de galinha para a economia no horizonte?