Em meu artigo anterior de opinião abordei o fato de que o Brasil estava enfrentando uma “segunda pandemia”, desta vez na saúde mental. Afinal, estava bem claro desde 2020, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), que teríamos muitos problemas de adoecimento psíquico. Farei alguns breves comentários sobre o assunto a partir de duas matérias publicadas na Folha de S.Paulo.
A primeira matéria que destaco, publicada na edição impressa no dia 18 de julho de 2022, foi assinada por Júlia Barbon e Adriano Vizoni. Ela tratou de revelar o quadro de adoecimento psíquico que se manifestava então. Como chamada da matéria, constou que os “suicídios sobem sem parar, segundo Datasus, e matam mais que acidente de moto, na contramão do resto do mundo”.
O quadro geral daquele momento descrito pela matéria refletia “um país que adoece mentalmente e acumula uma multidão de deprimidos e ansiosos e, consequentemente, de mortos”. A OMS, por sua vez, atribuiu o quadro à “piora da pobreza, à desigualdade, à exposição a situações de violência e à ineficiência de planos de prevenção”, citou a matéria. Em síntese, uma trágica realidade na América Latina.
De acordo com a matéria, os transtornos chegam a mais de 300 tipos, segundo a classificação DSM 5, a referência internacional criada pela Associação Americana de Psiquiatria. Os mais comuns são ansiedade e depressão. Em levantamento de 2017, a OMS “apontou o Brasil como o país com o maior índice de ansiosos do mundo (9,3% ou 18 milhões de pessoas) e o terceiro maior em depressivos (5,8% ou 11 milhões), muito próximo dos EUA e da Austrália (5,9%)”.
Os números pioraram com a pandemia de Covid-19. Segundo ressaltou a matéria assinada por Júlia Barbon e Adriano Vizoni, “a Associação Brasileira de Psiquiatria cita que um quarto da população tem, teve ou terá depressão ao longo da vida”. Entre as preocupações de então, a matéria destacou os adolescentes e jovens-adultos em geral, “com índices de mortes autoprovocadas disparando acima da média”. Há, portanto, grandes e complexos desafios para as políticas públicas de saúde mental no sentido de combater a crise.
A segunda matéria que destaco, de 4 de abril de 2023, da edição digital, foi assinada por Ana Bottallo. Essa matéria revelou um quadro geral no qual “os jovens estão cada vez mais deprimidos, ansiosos e com problemas relacionados à imagem e relação com os colegas”. A matéria trouxe números preocupantes. Levantamentos citados apontam no sentido de que houve “o crescimento do medo de violência escolar (2 em cada 3), o aumento das agressões sofridas nas escolas (subida de 48,5% em 2022 em comparação a 2019) e de depressão (cerca de 15% das crianças e adolescentes em todo o mundo apresentam sinais de depressão)”. Trata-se de um quadro social grave.
Falar desses problemas é fundamental, assim como é necessário cobrar políticas públicas adequadas para o enfrentamento da crise. Devemos investir mais em prevenção? O que isso significa em termos das incertezas e das precariedades múltiplas das vidas humanas em nosso país? Como as políticas públicas, nos três níveis de governança, podem melhorar efetivamente as vidas das pessoas?
No Brasil, conforme ressaltou a matéria assinada por Ana Bottallo, “houve um desmonte das políticas de atendimento psicológico infantil nos últimos anos”. Outros desmontes também ocorreram. Políticas de saúde mental devem ser integradas a outras políticas públicas de bem-estar social. De imediato, devemos buscar ampliar os serviços de assistência à saúde mental e fortalecer a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
Muitos adoecimentos psíquicos contemporâneos têm no trabalho a sua centralidade. No livro “Mal-estar no trabalho”, editado pela Bertrand Brasil, em 2009, a psiquiatra, psicanalista e psicoterapeuta de família Marie-France Hirigoyen detalhou esses meandros do adoecimento e as suas formas de violência. Esse quadro coletivo distópico precisa ser revertido a partir da articulação de políticas públicas que busquem o bem-estar social da população.
Para quem tem um maior interesse no assunto, recomendo o livro “O privilégio da servidão”, do professor Ricardo Antunes, editado pela Boitempo, em 2018. O livro aborda o quadro de precarização do trabalho com o avanço dos serviços digitais. Antunes mostra os múltiplos, complexos e contraditórios movimentos que estão presentes no mundo do trabalho, questionando a criação de valor na sociedade contemporânea.