Ainda que haja o hábito de focar nos problemas imediatos que nos cercam, banalizando as grandes questões históricas e estruturais, não devemos esquecer que a crise da democracia liberal é global. Desde a dissolução da União Soviética, no final de 1991, e a expansão mundial do capitalismo liberal, com todas as suas promessas e ilusões, a história esteve longe de terminar.
O forte ritmo de crescimento da China, a reorganização da Rússia e a emergência de diversos sistemas de governos iliberais revelaram que a tese do “fim da história” (1992) estava equivocada, conforme reconheceu o seu autor, Francis Fukuyama. Esse respectivo politólogo foi um dos ideólogos do neoconservadorismo, com o qual rompeu posteriormente.
Fukuyama condenou o fato de as democracias liberais modernas não assegurarem o reconhecimento da dignidade de todos os seres humanos. O cientista político revelou preocupações com a corrupção do poder econômico, com os ressentimentos sociais acumulados e como eles poderiam ser aproveitados por extremistas. Afinal, como iremos enfrentar as complexas crises sociais, econômicas e ecológicas no século XXI?
No livro “Liberalism and Its Discontents” (Macmillan, 2022), Fukuyama afirmou que o liberalismo “pode ser entendido como um meio de governar a diversidade”. Nesse sentido, o neoliberalismo falhou ao não reconhecer o papel central que o Estado deve desempenhar na administração da diversidade democrática, a partir de mediações institucionais.
O cientista político norte-americano destacou que o neoliberalismo é uma perigosa consequência do liberalismo econômico por promover a extrema desigualdade social em diversos países. Sob o neoliberalismo, ponderou ele, “o insight válido sobre a eficiência superior dos mercados evoluiu para uma espécie de religião, na qual a intervenção do Estado se opunha por uma questão de princípio”.
Para Fukuyama, “a premissa individualista na qual a teoria liberal se baseia não é, portanto, errada, mas incompleta”. A aplicação do modelo econômico composto por atores racionais individuais, que maximizam utilidades, tem sido corrosiva para mercados que respeitem valores como a dignidade do trabalho, a família, o altruísmo e a tradição. Ressentimentos sociais não tardam a surgir.
As ameaças à democracia liberal encontradas por Fukuyama são os valores clássicos do livre comércio do início do século XIX, exatamente as ideias que pensadores como Milton Friedman queriam ressuscitar para o final do século XX. Fukuyama, por sua vez, defende uma social-democracia humanista, compreendida como um projeto político que substituiria a autoridade irrestrita dos mercados pela responsabilidade democrática.
Os episódios recentes de vandalismos ocorridos em Brasília (DF), no dia 8 de janeiro, estão inseridos na dinâmica global de crise das democracias liberais. Nesse sentido, cabe às instituições democráticas nacionais zelar pelo bom funcionamento da República, fazendo com que as leis sejam respeitadas por todos, independentemente das preferências ideológicas das autoridades públicas.
Nos últimos anos, houve a clara tentativa da parte de alguns setores econômicos dominantes de banalizar absurdos em troca de que as reformas regressivas pautadas a partir de 2016 fossem realizadas. Em 2022, fomos confrontados com a realidade de que o mercado de trabalho continuava estruturalmente precário e que a insegurança alimentar havia se alastrado para mais da metade da população brasileira. A fome atingiu 33 milhões de brasileiros, destacou então a imprensa.
O empobrecimento geral e o reforço das desigualdades estruturais afetaram o ritmo de retomada da economia brasileira, após rodadas de reformas regressivas. Estamos ainda enfrentando as consequências de uma necropolítica. Políticas que concentram riquezas no topo e socializam prejuízos representam a receita clássica do subdesenvolvimento e da instabilidade político-institucional. Não há como construir um país estável e coletivamente próspero assim.
Segundo o Datafolha, 93% dos brasileiros discordam dos atos golpistas ocorridos no dia 8 de janeiro de 2023 na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF). Encontramos, desde então, na imprensa brasileira a caracterização do episódio como uma ação terrorista planejada, que deixou destruição ao vandalizar o patrimônio público, artístico, histórico e arquitetônico. Atos terroristas, com os seus praticantes e financiadores, não podem ficar impunes e se transformar em armas da disputa no jogo político brasileiro.