Pai de Instagram. Você já ouviu falar nessa expressão? Caso a resposta seja negativa, tenho certeza que você já presenciou bastante essa situação, mesmo não sabendo como defini-la. São aqueles pais que adoram postar fotos e legendas de muito amor, companheirismo e orgulho dos filhos, mas que não são verdadeiros pais quando se trata de responsabilidade e cuidado com a prole.
Muitos deles dizem amar e zelar pelos filhos, mas quando não convivem com as mães, disputam na Justiça o valor da pensão alimentícia a ser pago em favor da criança, acreditando que 30% de um salário mínimo (pouco mais de 300 reais, lembremos) é o suficiente para contribuir com todos gastos do filho.
Aqui eu costumo tratar das questões de maternidade, de mulheres, mas como o Dia dos Pais é neste próximo domingo, é necessário fazermos algumas reflexões, até porque as construções em volta da maternidade e da paternidade ocorrem a partir das mesmas estruturas, não sendo possível – muito menos recomendável – separá-las.
Em comemoração ao Dia dos Pais, uma marca de cosméticos lançou uma campanha publicitária para valorizar os homens que estão exercendo a paternidade presente, diferentemente do cenário retratado no início desse artigo e daquele que é sempre importante relembrar: mais de 5 milhões de crianças no Brasil não possuem o nome do pai no registro de nascimento.
Dentre os influenciadores escolhidos pela marca está Thammy Miranda, que se tornou pai do Bento no início do ano. Thammy é um homem trans e, como tem acontecido frequentemente no Brasil, foi alvo de ataques transfóbicos nas redes sociais por pessoas como Silas Malafaia, apoiador ferrenho do presidente, e Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do presidente. Pediram boicote à marca de cosméticos, mas o tiro saiu pela culatra. Sem nenhuma surpresa para nós, as ações da empresa tiveram aumento de mais de 10% em apenas dois dias.
É preciso lembrar a triste marca de que o Brasil é o país que mais mata transexuais. Busca-se eliminar tudo o que não se encaixa naquilo que acreditam ser o “padrão” aceitável. E quando vemos isso sendo pregado por pessoas que estão na política institucional, o cenário se agrava. Segundo a pesquisa “Violência contra LGBTs no contexto eleitoral e pós-eleitoral”, 92,5% das pessoas consideraram que as violências contra pessoas LGBT+ aumentaram durante as eleições, no segundo semestre de 2018.
Por que será que essas pessoas que dizem defender a família questionam tanto as famílias que fogem de um padrão que a gente sabe ser inexistente? Sempre soubéssemos que muitos pais são ausentes desde muito tempo; sempre soubemos que existem pais que possuem outras famílias paralelas; que existem pais que não pagam as pensões para os filhos enquanto vivem vidas muito confortáveis, porque querem punir as mães de alguma forma. Sempre soubemos disso e de muito mais coisas. Deixem essa moral hipócrita de lado, para que milhões de crianças possam, no próximo domingo, ter a alegria de desejar um sincero Feliz Dias dos Pais.