Segunda quinzena de março e o Estado do Espírito Santo começa a paralisar algumas atividades; muita gente passou a exercer o trabalho do escritório em casa e iniciou todo o processo da “novidade” que já sabemos como foi. Ficamos por um bom tempo sem entender ao certo o quanto isso ia durar, como ia ser, como faríamos para nos exercitar, para manter a saúde física e mental em dia e, principalmente, para não sermos contaminados pelos coronavírus.
Aqui no Estado não chegamos a um cenário “favorável” da pandemia. Pelo contrário, registramos a triste marca de 1.300 mortes em decorrência do vírus desde o início do problema, o que fica mais assustador quando pensamos que esse é o número aproximado de mortes diárias no Brasil, que já ultrapassou o número de 50 mil vidas perdidas.
Mas parece que, pra uma parcela de capixabas, essas vidas são irrelevantes. Desde o feriado que Corpus Christi, mais fortemente, as redes sociais estão enfestadas de fotos e vídeos de pessoas que estão vivendo a vida como se não estivéssemos em meio de uma pandemia. Alguns podem falar “ah, mas eu já estou em risco, já trabalho fora de casa mesmo; já estou em contato com outras pessoas; se eu pegar, não tem problema, porque todo mundo vai pegar uma hora”, dentre tantas outras desculpas. É falta de bom senso, de compaixão, de humanidade, de cuidado com a dor do outro. Falta de sentimento de coletividade.
Se você acha tudo isso, se acha que você está muito triste dentro de casa e precisa dar uma corridinha sem máscara no calçadão de Camburi às 9h de um domingo ensolarado; ou precisa dar um pulinho na água salgada pra aproveitar a praia vazia só pra você; ou ainda precisa subir as montanhas capixabas pra aproveitar esse friozinho que vem chegando, você tem que entender que suas atitudes refletem no coletivo e que você é egoísta e que não se importa em nenhum momento com as possibilidades de mortes que você está causando.
Mas, Renata, eu causando mortes? Sim. Se você está circulando livremente, está tendo contato no supermercado, na farmácia com pessoas que estão tomando os cuidados necessários e pode ser que elas sejam contaminadas por você. Além disso, se a taxa de isolamento está baixa e a contaminação alta, mais profissionais da saúde vão estar expostos à contaminação (e a maioria é de mulheres), mais pessoas vão estar sujeitas a internação – e se os leitos não tiverem mais disponíveis? – e mais e mais esses números de vidas perdidas vão aumentando.
Nós que estamos vivendo o luto próprio ou de pessoas próximas, nós que estamos sem dar uma saidinha pra ativar a vitamina D, nós que estamos lidando – seja de que forma for – com as dificuldades e os aprendizados diários do distanciamento social, não temos que ficar com meias palavras para não perder amizades, para não magoar, para não ser o chato das redes sociais que cobra o óbvio, o sensato, o humano. Continuamos com as mesmas dúvidas do início da pandemia e não aguentamos mais não sabermos quando poderemos voltar ao “novo normal” porque tem muita gente que tá vivendo a normalidade desde sempre.
Sair para trabalhar, ir ao supermercado, padaria, farmácia, são obrigações, necessidades. Subir as montanhas, pegar uma praia, dar uma voltinha na casa dos amigos, é uma escolha. Você pode escolher ser, de verdade, um cidadão de bem ou desrespeitar o luto de 1.300 famílias capixabas. A escolha é sua.