Sempre que surgem novas revelações de escândalos envolvendo o atual governo federal, seus apoiadores e seus familiares, eu falo essa frase indignada: “Imagina se fosse a Dilma, hein?!”. O ano de 2016 foi emblemático quando pensamos nas atrocidades misóginas que envolveram o processo de afastamento da ex-presidenta. Revistas de grande circulação imputaram loucura, destempero, despreparo técnico e linguístico de Dilma. Dá até saudade de lembrar que o “problema” era estocar vento e saudar a mandioca.
Agora temos um homem ocupando o posto de presidente da República que, sem nenhum pudor, afirma que sua vontade é encher a boca de um jornalista de porrada. Sim, “A vontade é encher tua boca com uma porrada, tá?” foi dito por Jair Bolsonaro, atual presidente da República. E o motivo? Nada justifica tamanha inaptidão, grosseria e violência vinda de um presidente, mas o que levou Jair a cometer mais essa violência foi ter sido questionado a respeito do repasse de R$ 89 mil de Fabrício Queiroz para Michelle Bolsonaro, primeira-dama.
"Não há decoro, não há respeito, não há a menor possibilidade de aceitar a continuidade dessas violações diárias de direitos de todos e todas as brasileiras. Somos vilipendiados de todas as formas, todos os dias, por um governo que age como um grupo de moleques milicianos"
Gostaria muito de ter a possibilidade de fazer um experimento e colocar tudo que vem acontecendo com Jair Bolsonaro como se fosse a ex-presidenta Dilma para saber qual seria a reação da imprensa, do Congresso e do Supremo. Não é possível que estejamos de mãos atadas, “com o Supremo, com tudo”, enquanto a família Bolsonaro toma de assalto o país, sem o menor escrúpulo.
Eu queria muito saber qual seria a reação se uma ministra de Dilma estivesse supostamente envolvida com o vazamento de dados sigilosos de uma criança de dez anos violentada sexualmente e engravidada. Também queria saber como a imprensa e a população brasileira estaria reagindo se fosse o esposo ou a filha de Dilma recebendo cheques de um miliciano que trabalha com a família da presidenta. E o dólar a mais de R$ 5 e a gasolina custando mais de R$ 4? Que escárnio seria isso na época de Dilma, que recebeu até adesivos misóginos em tanques de gasolina.
Enquanto eu escrevo esse artigo, o presidente Bolsonaro se refere aos profissionais da imprensa como bundões. Não há decoro, não há respeito, não há a menor possibilidade de aceitar a continuidade dessas violações diárias de direitos de todos e todas as brasileiras. Somos vilipendiados de todas as formas, todos os dias, por um governo que age como um grupo de moleques milicianos.
Jair Bolsonaro se ocupa de dizer que o “pai tá on” e desejar boa sorte para um jogador de futebol que sequer está jogando no Brasil. Mas silencia – ou parte para a violência - quando é instado a responder coisas sérias, que realmente importam ao dia a dia de cada um dos brasileiros e à sobrevivência da nossa democracia. Fico imaginando se fosse a Dilma...