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Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

"Temporada de Verão", da Netflix, é uma boba novelinha teen

Sucesso brasileiro na Netflix, "Temporada de Verão" tem bons personagens e um cenário paradisíaco, mas não oferece novidade em relação ao que assistimos na TV

Vitória
Publicado em 25/01/2022 às 20h35
Série brasileira
Série brasileira "Temporada de Verão", da Netflix. Crédito: Aline Arruda/Netflix

Uma olhada rápida no time de criadores e roteiristas de “Temporada de Verão” basta para entendermos um pouco da série lançada pela Netflix. Michel Carvalho é roteirista de programas de TV e de documentários como o bom “Mussum, um Filme do Cacildis”; Ana Pacheco é corroteirista do sucesso “Detetives do Prédio Azul”; e Natália Piserni trabalhou em “Carinha de Anjo”, “Minha Mãe é uma Peça 3” e na novela “Jesus”, da Record. É essa experiência do trio em programas e narrativas de televisão dá o tom da série.

“Temporada de Verão” tem início com uma festa. É aniversário de Catarina (Giovanna Lancelloti) e ela comemora a data em uma paradisíaca ilha no litoral de Santa Florianópolis, local onde o pai de Rodrigo (Leonardo Bittencourt), seu namorado, é sócio de um hotel. Após ser pedida em casamento, dá tudo errado para a jovem - sua mãe é presa por lavagem de dinheiro e ela ainda flagra o namorado aos beijos com outra menina. Sem rumo e com os cartões bloqueados, Catarina não tem outra opção além de passar a trabalhar no hotel durante o verão.

O primeiro dos oito episódios já apresenta alguns conflitos da protagonista, como seu vício em compras, e também funciona para introduzir a dinâmica do hotel Maresia. Catarina passa a fazer parte da equipe de funcionários que tem os veteranos Miguel (André Luiz Frambach), Marília (Cynthia Senek) e o chileno Diego (Jorge López, de “Elite”), além das novas caras, Conrado (Maicon Rodrigues), Helena (Giovanna Rispoli) e Yasmin (Gabz), cada um com alguns conflitos que em algum momento surgirão na série.

“Temporada de Verão” se assemelha muito ao que seria uma temporada de “Malhação” com jovens convivendo na praia e em festas entre um ou outro momento de trabalho no hotel. O texto também traz uma subtrama com o casal Maresia (Felipe Rocha) e Vilma (Mayana Neiva), administradores do local e que ganham importância quando algumas revelações são apresentadas.

Série brasileira
Série brasileira "Temporada de Verão", da Netflix. Crédito: Aline Arruda/Netflix

Com texto televisivo muito próximo dos de novela, “Temporada de Verão” é um produto de fácil consumo e que quase nunca incomoda, mas que por vezes também parece não fazer muito sentido. A série apresenta e resolve boa parte de seus conflitos com bastante agilidade - todos os personagens no núcleo jovem têm tramas individuais, o que garante a eles até uma inesperada profundidade.

Mesmo de maneira superficial, a série apresenta temas interessantes como a gentrificação, diferenças sociais, privilégios, maternidade solo e maconha para uso medicinal. Todos esses assuntos fazem parte de uma ou outra trama, mas o que importa mesmo são as relações interpessoais e as jornadas de transformações de cada um daqueles personagens, pois aquele verão vai mudar a vida de todos.

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Série brasileira "Temporada de Verão", da Netflix. Crédito: Aline Arruda/Netflix

“Temporada de Verão” tem um texto atual que se aproveita de algumas liberdades da plataforma de streaming para soar menos artificiais. Assim, os jovens falam palavrões e conversam naturalmente sobre drogas e também sobre séries da própria Netflix, uma obsessão de Helena. Outro ponto interessante é a trilha sonora atual e cheia de músicas que condizem que a vida de jovens na praia, muito rap, trap e reggae, nada de música de "tiozão" querendo parecer descolado.

A naturalidade de algumas conversas e situações contrasta com alguns sotaques que soam completamente forçados - o carioca André Luiz Frombach tenta dar um sotaque de Florianópolis para seu Miguel, já a niteroiense Gabz força um sotaque paulistano “da quebrada” que nunca convence. Vale ressaltar que, deixando os detalhes de lado, ambos estão bem na série, principalmente Gabz, que usa seus talentos como rapper para compor a personagem.

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Série brasileira "Temporada de Verão", da Netflix. Crédito: Aline Arruda/Netflix

O resto do elenco também se sai muito bem, conferindo peso a algumas decisões mais difíceis dos personagens e também frescor a algumas descobertas da adolescência - de orientação sexual à perda da virgindade, passando por amizades improváveis e até mesmo autoconhecimento.

O problema de “Temporada de Verão” ironicamente é também um de seus atrativos. Na ânsia por agilidade e viradas constantes, o roteiro se aproxima muito das tramas novelescas. Sempre há alguém observando um casal se beijar ou escutando alguma conversa reveladora - os personagens têm um timing impecável para surgir no exato momento de descobrir algo, como se tivessem um teletransporte. Esse recurso é narrativamente comum, mas, utilizado em exagero em uma trama curta, se torna cansativo e pouco crível.

Outra questão que incomoda é que alguns conflitos surgem e são completamente abandonados até o momento em que o texto necessita deles para se movimentar. Uma dessas tramas nem sequer faz sentido quando é resgatada, mas o roteiro precisava dela para movimentar o arco de Yasmin. A única que se sustenta ao longo de toda a temporada é a de Catarina, que funciona de maneira quase independente.

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Série brasileira "Temporada de Verão", da Netflix. Crédito: Aline Arruda/Netflix

Sem uma segunda temporada confirmada, o final da primeira é até satisfatório no que diz respeito às histórias individuais, mas a execução é atropelada. A série deixa para resolver tudo para todos no último episódio e acaba tirando dele a urgência de alguns arcos com o final todo bonitinho, com todos reunidos dizendo o que farão após o verão.

“Temporada de Verão” pode estar na Netflix, mas é uma narrativa que sofre com vícios de TV aberta. A série não é necessariamente ruim, mas tampouco se esforça para oferecer algo diferente do que o público brasileiro consome há anos em novelas juvenis como “Malhação” e “As Five”.

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