Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

"Ragnarok", da Netflix, se repete em segunda temporada

Série norueguesa que mistura drama adolescente com mitologia nórdica tem bons momentos, mas não supre as expectativas criadas na primeira temporada

Vitória
Publicado em 28/05/2021 às 23h02
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Série "Ragnarok", da Netflix. Crédito: Christian Geisnaes/Netflix

A pequenina e fictícia Edda, na Noruega, está de volta ao centro do mundo. A “última cidade do país a se tornar cristã” foi criada especialmente para receber a trama da série norueguesa “Ragnarok”, que mistura mitologia nórdica com trama adolescente e críticas ambientais. A série foi um dos inesperados sucessos da Netflix em 2020 e agora retorna à plataforma para sua segunda temporada.

Voltando à temporada anterior, vimos Magne (David Stakston) se descobrindo como Thor ao mesmo tempo em que descobria que os Jutul, família mais poderosa da cidade e donos da empresa que emprega praticamente todo mundo por lá, eram gigantes, uma raça de antagonismo aos deuses nórdicos. Ao final do sexto episódio, o aguardado conflito entre Magne e Vidar fazia o espectador crer que veríamos muito mais disso na segunda temporada… Ledo engano.

Em mais uma leva de seis episódios de cerca de 45 minutos cada, “Ragnarok” desacelera. Enquanto a primeira temporada era praticamente o arco de Magne como Thor, a segunda investe mais tempo na construção de Lauritis (Jonas Strand Gravli) como Loki. São muitas idas e vindas para justificar o comportamento errático do jovem e de alguma forma encaixar o nome mais complexo da mitologia nórdica na série.

A segunda temporada funciona quase como uma construção de exércitos para o conflito final, com Loki sempre flutuando entre os dois lados. Não é necessário se rum estudioso da mitologia nórdica para entender os principais conceitos da série - no início de cada episódio há uma contextualização acerca de um personagem que será desenvolvido pelos próximos 40 minutos. É didático, mas funciona.

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Série "Ragnarok", da Netflix. Crédito: Christian Geisnaes/Netflix

Há, no entanto, uma sensação de frustração, de termos sido enganados ao não encontrarmos aquilo que procurávamos nos novos episódios. A segunda temporada tem bons momentos, alguns arcos interessantes e umas escolhas até ousadas. É interessante ver o esforço dos roteiristas para encaixar arcos da mitologia nórdica em uma trama adolescente - se você sabe o motivo da rivalidade entre Thor e Loki, por exemplo, entenderá logo qual o destino de alguns personagens na série.

O problema é que essas inserções nem sempre são naturais. Se por um lado funciona para a rivalidade entre os irmãos, por outro tem algumas histórias que forçam muito a barra - é o caso dos arcos de Freya, Fyr e, principalmente, de tudo o que envolve a serpente de Loki.

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Série "Ragnarok", da Netflix. Crédito: Christian Geisnaes/Netflix

Mesmo com um arco complicado em mãos, Jonas Strand Gravli se sai muito bem. Ao contrário de David Stakston, com um Magne/Thor bem superficial, o Lauritis/Loki de Strand Gravil é um personagem complexo. Andrógino e em uma constante transformação, Lauritis é em torno de quem o roteiro orbita - está presente em todos os momentos de virada da trama mesmo sem ser o protagonista.

“Ragnarok” agora deixa de lado um pouco os relacionamentos pessoais para investir na mitologia. Não é que os namoricos adolescentes não estejam presentes no texto, eles apenas não representam o centro das histórias. Há bons arcos dramáticos de relacionamentos, como o de Fjor (Herman Tømmeraas) e Gry (Emma Bones), mas eles servem apenas como recurso para decisões do roteiro.

Com protagonismo adolescente, a série norueguesa parece cada vez mais próxima de algo meio “Crepúsculo” ou “The Vampire Diaries”, o que é mais uma constatação do que uma crítica. “Ragnarok” às vezes é meio gratuita - aparentemente todos os deuses nórdicos estão lá por Edda -, mas é eficaz no que se propõe a fazer e justifica todas as suas escolhas. Cabe à audiência comprar ou não essas justificativas que nem sempre são muito boas.

O grande problema da série é não suprir as expectativas construídas na primeira temporada. A impressão final é de que, apesar de alguns acontecimentos, a trama não caminhou tanto quanto deveria e o prometido confronto, o “fim do mundo”, ficou para os próximos anos. A segunda temporada, tal qual a primeira, se encerra com a promessa de um grande combate, mas, se continuar assim, corre o risco de “Ragnarok” ser cancelada sem nunca chegar ao evento que dá título à série.

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