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Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

Falta tudo a "Aqueles Que Me Desejam a Morte", com Angelina Jolie

Lançado nos cinemas por aqui, "Aqueles Que Me Desejam a Morte", com Angelina Jolie, deixa escapar as possibilidades de se tornar um bom filme

Vitória
Publicado em 27/05/2021 às 01h41
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Filme "Aqueles que me desejam a morte", com Angelina Jolie,. Crédito: Warner/Divulgação

“Aqueles Que Me Desejam A Morte”, que chega aos cinemas esta semana,  aparenta estar deslocado no tempo. Baseado no livro homônimo de Michael Koryta, o filme dirigido por Taylor Sheridan (“Terra Selvagem”) é uma obra que parece saída dos anos 1990 ou do início dos anos 2000, com o estilo dos filmes feitos na época apenas atualizados para os dias de hoje.

Em um de seus raros papéis recentes (exceção feita aos dois “Malévola”), Angelina Jolie vive Hannah, uma bombeira florestal que ainda sofre com os acontecimentos do verão passado, quando comandava uma equipe durante um incêndio de grandes dimensões que vitimou um colega e três jovens.

Logo conhecemos as outras partes da história. Primeiro, Jack (Aiden Gillen) e Patrick (Nicholas Hoult), dois assassinos contratados para eliminar algumas pontas soltas de um grande esquema de corrupção de poderosos. Pouco depois somos apresentados a Owen (Jake Weber) e seu filho, Connor (Finn Little). Owen é um contador forense que desvendou tal esquema e, quando descobre que um de seus colegas foi morto em condições suspeitas, parte em fuga para encontrar o cunhado, Ethen (John Bernthal), um policial que atua na mesma região de Hannah.

Não demora muito para que o caminho de Hannah se cruze com o de Connor em meio a um grande incêndio florestal que lhe traz lembranças amargas, mas que ela terá que superar para proteger o jovem dos assassinos.

“Aqueles Que Me Desejam a Morte” é um filme de ação e sobrevivência que outrora seria estrelado por Sylvester Stallone, Bruce Willis ou Nicolas Cage (que já esteve ligado ao projeto), quiçá até um Jean Claude Van Damme, mas que encontra em Angelina Jolie sua grande estrela e seu principal chamariz.

Hannah se esforça para fazer parte do “clube do Bolinha” de sua profissão e Jolie entende isso. Há trocas interessantes entre a protagonista e seus companheiros, mas a personagem parece sofrer com o roteiro, que tem no fato de Hannah estar “quebrada” seu traço de personalidade mais marcante, ou seja, não há profundidade ou desenvolvimento. Ainda assim, Jolie se sai bem também em alguns diálogos com Connor enquanto Hannah tenta conhecer o traumatizado jovem. O roteiro também acerta ao fugir da caricatura da mocinha em perigo não apenas com a personagem de Jolie, mas também com outra figura feminina importante à trama.

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Filme "Aqueles Que Me Desejam a Morte", com Angelina Jolie. Crédito: Warner/Divulgação

Foi Sheridan, inicialmente contratado para reescrever o roteiro, que levou Angelina Jolie para o projeto e, com isso, convenceu o estúdio a lhe entregar também a direção. Assim, surpreende que o filme tenha pouco da assinatura sócio-política que o cineasta imprimiu nos outros projetos que dirigiu ou escreveu, como “A Qualquer Custo”, “Sicário”, o recente “Sem Remorso” e o já citado “Terra Selvagem”. A verdade é que “Aqueles Que Me Desejam a Morte” tem mais vocação para um grande blockbuster de ação do que para o faroeste moderno de personagens dos outros filmes de Sheridan.

A ideia de um breve recorte de acontecimentos é uma tentativa de trocar qualquer profundidade do filme por uma urgência que não é sentida pelo público - nunca nos preocupamos com o destino dos personagens porque não sabemos nada sobre eles e não criamos conexão alguma. É irônico, quase uma trapaça, que o texto use os pequenos arcos de alguns deles justamente para tentar dar alguma emoção à trama.

A escolha por esse recorte aproxima o filme de Sheridan de uma obra pulp, revistas feitas de papel barato e com diversão rápida que se popularizaram no início do século passado. Essa característica é reforçada pela dupla de vilões, os assassinos sobre quem nada se sabe,  misteriosos, que trocam provocações entre si e até reclamam do orçamento da missão - são eles os que mais se aproximam de ter qualquer carisma durante o filme inteiro.

Em um cenário grandioso (a floresta) e em um universo de diversas possibilidades (os bombeiros), parece faltar ao texto uma vontade de explorar melhor essas possíveis histórias. A ambientação é aproveitada em uma ou outra tomada aérea e na boa fotografia, principalmente no terceiro ato, mas não vemos nada da ação dos bombeiros florestais além de um conhecimento ocasional da protagonista sobre sobrevivência. É um erro do material original? Provavelmente sim, mas Sheridan poderia ter corrigido isso.

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Filme "Aqueles Que Me Desejam a Morte", com Angelina Jolie. Crédito: Warner/Divulgação

“Aqueles Que Me Desejam a Morte” é bem mais convencional do que o título dá a entender. É bom ver Angelina Jolie de volta a papéis mais sérios e até ao universo de ação, e é fácil entender porque ela foi atraída pelo projeto de Sheridan, um dos nomes mais interessantes do cinema hollywoodiano atual, mas o filme nunca engrena. Ao fim, a sensação é que faltam bons diálogos, boa edição, boas sequências de ação, bom desenvolvimento… Enfim, falta um pouco de tudo ao filme que provavelmente seria bem recebido nas plataformas de streaming por aqui, como foi nos EUA (no HBO Max), mas que não faz valer a ida ao cinema principalmente em meio à pandemia.

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