Crítico de cinema e apaixonado por cultura pop, Rafael Braz é Jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

"O Mito de Sísifo": série da Netflix tem romance e viagem no tempo

Superprodução coreana na Netflix, "O Mito de Sísifo" pega conceitos da mitologia grega para contar uma história de ficção científica com bom drama

Vitória
Publicado em 01/06/2021 às 00h41
Série coreana
Série coreana "O Mito de Sísifo", da Netflix. Crédito: Netflix/Divulgação

Na mitologia grega, Sísifo foi o mais astuto dos homens, mestre da malícia e da felicidade punido pelos deuses a rolar uma pedra montanha acima diariamente, por toda a eternidade - foi uma punição por ele tramar contra os deuses e uma maneira de envergonhá-lo, pois não havia esperteza que fizesse a pedra não rolar montanha abaixo ao fim de cada dia.

Escrito por Albert Camus em 1941, “O Mito de Sísifo” é um ensaio sobre um homem em busca de sua essência, de um sentido na vida. Na busca, ele se depara com um mundo desconexo, no qual as coisas nem sempre fazem sentido, controlado por instituições religiosas e políticas que despertam no homem o desespero. Camus usa Sísifo para explicar a condição humana e a repetição diária do nosso comportamento, uma metáfora para a vida “moderna” dos sistemas político-econômicos que despontavam na primeira metade do século passado.

“O Mito de Sísifo”, série coreana da Netflix, pega os dois conceitos para criar um drama com fortes cargas de ficção científica. Com quatro episódios disponibilizados na plataforma (do total de 16 que serão lançados de quatro em quatro), a série tem início com Han Tae-sul (Cho Seung-woo), mente por trás da maior empresa de tecnologia da Coreia, durante um voo. Alguma coisa estranha acontece e ele tem que evitar que o avião caia matando todos a bordo. Conhecemos também a misteriosa Gang Seo-hae (Park Shin-Hye), uma mulher que parece perdida no tempo, sem entender os costumes da Coreia do Sul de 2020 e que busca uma forma de entrar em contato com Han Tae-sul.

É a partir do segundo episódio que tudo começa a “fazer sentido” (as aspas são importantes) em “O Mito de Sísifo”. Com referências que vão de séries como “Fringe” e “Counterpart” a clássicos literários como as obras de William Gibson (citado na série) e “1Q84”, de Haruki Murakami, a série da Netflix constrói uma narrativa de idas e vindas temporais, seja por meio de flashbacks ou, bem… por viagem através de diferentes linhas do tempo.

Com bastante espaço para desenvolvimento de roteiro, a série não se preocupa em acelerar os acontecimentos e dá tempo para que o espectador assimile o que acabou de consumir. O casal de protagonistas passa a ser perseguido pela Agência de Imigração e seus violentos agentes responsáveis pelo controle de viajantes ilegais no tempo.

A questão é, como podemos ver nos momentos que se passam no futuro, alguma coisa deu errado, com cidades destruídas e uma total ausência de leis - um cenário bem parecido com o futuro pós-apocalíptico de “The Walking Dead” e “The Last of Us. Com o futuro em risco, muitos querem voltar para rever pessoas amadas ou apenas para viver em uma época melhor. A metáfora com as questões migratórias não é nada sutil.

Série coreana
Série coreana "O Mito de Sísifo", da Netflix. Crédito: Netflix/Divulgação

É curioso que, apesar de a trama de viagem no tempo ser bem intrincada, “O Mito de Sísifo” não faz dela seu único arco. Há algumas cenas cômicas (quase sempre deslocadas) e uma possível história de amor entre Seo-hae e Tae-su, um arco feito sob medida para agradar os fãs dos dramas coreanos - não é coincidência que os dois protagonistas tenham vários k-drama nos respectivos currículos. Há também a busca de Tae-su pela verdade sobre a morte do irmão.

Mais adiante, entendemos as motivações da jornada de Kang Seo Hae e também suas habilidades. Park Shin-Hye (que talvez você conheça do filme “#Alive”, também na Netflix) brilha nas cenas de ação filmadas sempre com poucos cortes ou até mesmo em bons planos-sequência. Vale ressaltar, no entanto, a ineficiência de alguns personagens na ação, algo do nível falta de mira dos storm troopers de "Star Wars"; a série até tenta justificar lá pra frente, mas não convence.

Série coreana
Série coreana "O Mito de Sísifo", da Netflix. Crédito: Netflix/Divulgação

O texto faz um bom trabalho em inserir os arcos na trama principal de forma orgânica - na verdade, a “história de amor” é até parte essencial do fio condutor. Por mais que as ideias de ficção científica da série sejam boas, e elas são, não são elas que prenderão o espectador por 16 longos episódios, com mais de uma hora cada. A ideia de lançá-los em blocos é uma boa sacada para diminuir a sensação de que são muitos.

Produzida pelo canal a cabo JTBC em parceria com a Netflix, a série tem orçamento bom, mas não o suficiente para o que ambiciona. Os efeitos visuais são quase toscos, o que funciona em obras como “Doctor Who”, que opta por essa tosqueira como um estilo, mas não encaixa tão bem quando se ambiciona a grandiosidade. Assim, desde a sequência inicial, com tomadas externas do tal avião, já se percebe a baixa qualidade dos efeitos.

Série coreana
Série coreana "O Mito de Sísifo", da Netflix. Crédito: Netflix/Divulgação

A opção por uma temporada longa e episódios igualmente longos tira um pouco a força da narrativa depois da apresentação e da compreensão dos conceitos. Assim que entendemos como aquele universo funciona, a série se repete em vários momentos e situações. Além disso, a atuação dos agentes de imigração é repetitiva: rastrear o alvo, cercar o alvo, tentar eliminar o alvo… Todas as sequências servem apenas como uma desculpa para algumas boas cenas de ação que quebram o ritmo do drama e da ficção científica.

“O Mito de Sísifo” é uma série cheia de boas ideias e referências, mas sofre com suas ambições. Apesar disso, a nova série coreana da Netflix funciona bem como uma história de ficção científica bem construída com conceitos de fácil assimilação e até um certo nível de didatismo que talvez possa afastar alguns fãs do gênero, mas que torna tudo muito mais pop para quem busca na série um drama coreano.

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