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Crítico de cinema e colunista de cultura de A Gazeta

Michel Teló vai de Almir Sater a John Mayer em "Pra Ouvir no Fone"

Com sete músicas, "Pra Ouvir no Fone" tem um Michel Teló mais intimista, com voz suave e sonoridade moderna, cantando sobre as coisas simples da vida

Vitória
Publicado em 04/12/2020 às 13h00
Músico Michel Teló na divulgação do disco
Músico Michel Teló na divulgação do disco "Pra Ouvir no Fone". Crédito: Allan Shigueaki Mogui/Divulgação

Quando a pandemia de Covid-19 chegou ao Brasil, Michel Teló se preparava para lançar o segundo volume do "Churrasco do Teló". "Eu liguei pra todo mundo, desmarcando tudo, falando que a coisa tava séria. Quiseram jogar pro meio do ano e eu falei 'vocês estão sendo otimistas demais'", revela, em entrevista em vídeo.

O distanciamento social causado pela pandemia alterou os planos do músico para 2020. Isolado em casa com a esposa, Thais Fersoza, e os filhos, Melinda, de quatro anos, e Teodoro, de três, o músico se voltou para a reflexão nas sete canções que integram o recém-lançado EP "Pra Ouvir no Fone".

A ideia, segundo Teló, é oferecer um respiro, falar das coisas simples da vida de maneira simples. O resultado é um disco que dialoga tanto com Almir Sater e Renato Teixeira quanto com a música do americano John Mayer - não aquele John Mayer pop, mas o músico com raízes na música country americana, como mostrou no disco "Paradise Valley".

O nome do disco vem justamente desse clima intimista - "Pra Ouvir no Fone" traz músicas confortáveis, traz "o interior do Michel e o Michel do interior, sabe?", indaga o músico, que, apesar de ter nomeado o álbum assim, o ouviu em alto e bom som em casa durante o período de isolamento.

O curioso é que Teló, inicialmente, nem sequer pretendia lançar essas músicas. Começou com um arranjo aqui, uma melodia acolá, uma letra ali... Aí mandou algumas coisas para o irmão, Teófilo, que escreveu mais um pouco, outras músicas surgiram, estava pronto o disco do qual o músico fala com tanto orgulho.

Michel Teló

Músico

"Eu sei que não são músicas de estourar em rádio ou no streaming. Não espero entrar nas mais tocadas, mas o que vier é lucro. É um trabalho lindo, pessoal, e quero que todo mundo ouça"

"Eu sei que não são músicas de estourar em rádio ou no streaming, não espero entrar nas mais tocadas, mas o que vier é lucro. É um trabalho lindo, pessoal", pondera. Questionado sobre se um lançamento do tipo requer que ele se dispa da vaidade do sucesso, Teló responde: "um pouco… É difícil, mas eu realmente não espero nada. Só queria lançar essas músicas para aquecer o coração das pessoas em um momento complicado.

“São músicas inspiradas no nosso dia a dia, nos nossos medos, nossas frustrações, sabe? Mas também dos nossos sonhos, nossas alegrias, nossas vitórias. Das coisas simples da vida”, completa.

SONORIDADE POP CAIPIRA

“Pra Ouvir no Fone”, o disco, mistura a viola tradicional da música caipira brasileira às melodias da música country americana. Isso já fica claro desde os primeiros acordes de “O Tempo Não Espera Ninguém”, que abre o disco. Curiosamente, o título da música é uma frase utilizada por Teló em suas redes sociais já há bastante tempo. A música conta Teló, foi escrita em quarto de hotel, na estrada, enquanto pensava na loucura que é sua vida. À época, Thais estava grávida da filha Melinda.

A música seguinte, que dá nome ao disco, também é a que o resume melhor. Teló canta em tons mais baixos, contidos, apostando na melodia, mas também deixando claro que suas raízes estão no campo - seja pelo sotaque puxando o “r”, seja pela letra: “Deus me disse / larga mão / de ser bicho homem. Relaxa / tô mandando música / pra ouvir no fone”, canta, no refrão, ainda trocando “música” por “moda” em determinado momento e reforçando sua “caipirice”. A música é conduzida numa mistura de viola slide com teclados modernos. Teló nunca foi tão próximo da música pop, ainda assim sem se esquecer de quem o influenciou.

É interessante como Michel Teló busca essa estética pop (“o que eu sempre fui, o que sou”, diz, durante a entrevista) mas sempre falando da vida simples. “Café Coado”, outro destaque, é puro Almir Sater: “Cheiro de café coado / manhã de sol de setembro / meu canto, meu chão / é aqui que eu me entendo”.

Michel Teló, cantor. Foto divulgação do disco
Michel Teló, cantor. Foto divulgação do disco "Pra Ouvir no Fone". Crédito: Allan Shigueaki Mogui/Divulgação

O disco ganhou um clipe gravado ao pôr do sol das montanhas de São Luiz do Paraitinga, interior de São Paulo. “Tinha que ser algo assim, mais íntimo, aquele luzinha de fim de dia”, conta Teló. Segundo ele, cada vez que ele passava de avião sobrevoando a região, entre um show e outro, uma turnê e outra, ele olhava para a paz da região e desejava estar ali. “No dia da gravação eu acordei cedo e fui. São seis horas de viagem do Rio até lá. Foi lindo, gostoso demais”, conta o músico.

“Pra Ouvir no Fone” é um disco que realmente talvez não estoure, mas que comprova que Michel Teló é um dos caras mais criativos e inquietos da música brasileira.

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Rafael Braz

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