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Crítica

"El Cid": 2ª temporada tem bons combates, mas exagera na lenda

"El Cid", série espanhola sobre Rodrigo Díaz de Vivar, chega à segunda temporada na Amazon Prime agora focada na construção da lenda do guerreiro

Publicado em 15 de Julho de 2021 às 22:47

Públicado em 

15 jul 2021 às 22:47
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz Rafael Braz
Série
Série "El Cid", da Amazon Prime Video Crédito: Amazon/Divulgação
Na primeira temporada de “El Cid”, conhecemos Rodrigo Díaz de Vivar, um lendário guerreiro espanhol do século XI que se destacou na guerra entre os reinos espanhóis recém-convertidos ao cristianismo e os mouros que ocupavam boa parte de onde hoje é a Espanha. Fato é que Ruy, como era conhecido, lutou tanto ao lado dos reis cristãos espanhóis quanto ao lado dos mouros de Zaragoza, o que lhe rendeu a fama de mercenário antes de se tornar o governante de Valência, reino curiosamente conquistado com guerreiros árabes e cristãos - não à toa a arquitetura e os costumes da cidade ainda hoje são uma grande mistura das duas culturas.
Enquanto a primeira temporada de “El Cid” nos apresentou ao guerreiro de origem nobre, mas que levou uma vida simples, a segunda, que chegou nesta quinta (15) ao Amazon Prime Video, é a construção da lenda em torno de seu nome. São vários os momentos durante os cinco episódios da série em que isso fica claro. Ruy (Jaime Lorente) é temido por seus inimigos, admirado por seus amigos e desejado por todas as mulheres, e isso não é uma hipérbole. “Estar com você é como viver as histórias que contamos a nossos filhos”, diz um sujeito ao conhecê-lo. O Campeador agora já é uma lenda e o texto não deixará que a audiência se esqueça disso por um minuto sequer.
“El Cid” é uma produção interessante, que aproveita bem o interior da Espanha, seus campos abertos, suas ruínas, fortalezas e seus castelos, dando um ar de grandiosidade à série - as diferentes características de cada reino são aproveitadas pelo texto. A recriação de época também funciona bem, com roupas e armaduras que indicam o status social de cada personagem. As cenas de luta são corretas, sem coreografias muito elaboradas, mas os golpes têm peso e tudo é violento o suficiente para passar a credibilidade de grandes conflitos históricos.
Narrativamente, a série opta pela segurança e pelas saídas mais fáceis. Nos cinco novos episódios, Ruy se vê em meio a uma briga de irmãos por poder, a famosa “Guerra dos Sete Anos”. Todos querem que o campeador os acompanhe, algo como “quem tem Ruy tem a vantagem no combate” (é a construção da lenda…), mas sua fidelidade histórica com Sancho (Francisco Ortiz) fala mais forte.
Série
Série "El Cid", da Amazon Prime Video Crédito: Amazon/Divulgação
A segunda temporada tem estrutura muito similar à primeira, com os três primeiros episódios centrados nas artimanhas políticas, nas intrigas entre reinos e governantes, preparando o terreno para os eventos dos dois episódios finais, com mais batalhas e reviravoltas.
“El Cid” é uma série correta, um drama histórico com boas doses de melodrama, mas tem narrativa atropelada. Se em uma cena personagens conversam sobre a possibilidade de atacar outro reino, na próxima já estão em combate. Isso acontece o tempo todo também para reforçar tanto a integridade de Ruy quanto para mostrar a falta de caráter de alguns antagonistas - se alguém fala “não podemos confiar em fulano”, a cena seguinte é “fulano orquestrando alguma maldade”.
Série
Série "El Cid", da Amazon Prime Video Crédito: Amazon/Divulgação
Esses recursos em muito lembram a criticada temporada final de “Game of Thrones”, quando os produtores ficaram sem a base dos livros de George R. R. Martin para ambientar suas tramas. Ainda, para reforçar o aspecto heroico de Ruy, o personagem de Jaime Lorente é genial o tempo todo, acertando até quando erra e proferindo frases de efeito em sequência. Rodrigo Díaz de Vivar é mártir, galã, guerreiro, legal, justo, estrategista... um sujeito que a série constrói como perfeito e íntegro, justificando todas as suas escolhas em nome de um senso de justiça.
“El Cid” é grandiosa, bem produzida, com cenários incríveis e localidades belíssimas, mas abusa dos clichês na construção da lenda em torno de seu protagonista. Faria bem à série um texto menos atropelado e uma maior atenção aos detalhes (a utilização de um boneco em uma cena de morte beira o ridículo), mas o resultado final é bem satisfatório. Ao final da temporada, queremos saber o destino dos personagens e dos reinos, afinal a Guerra dos Sete Anos é cheia de camadas. A jornada de Rodrigo Díaz de Vivar ainda está longe do fim, mas falta saber se a Amazon continuará com a série até os dias finais de seu protagonista.

Rafael Braz

Rafael Braz Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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