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Crítica

"Desjuntados", da Amazon, é uma refinada e divertida comédia romântica

"Desjuntados", série brasileira do Amazon Prime Video, tem Letícia Lima e Gabriel Godoy como um casal em meio a um complicado processo de separação

Publicado em 30 de Setembro de 2021 às 15:25

Públicado em 

30 set 2021 às 15:25
Rafael Braz

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Rafael Braz

Série
Letícia Lima e Gabriel Godoy em "Desjuntados" Crédito: Amazon Prime Video/Divulgação
“Desjuntados”, que chega nesta sexta (1º) ao Amazon Prime Video, é uma série peculiar. Em virtude da pandemia, a Amazon levou algumas de suas produções brasileiras para Montevidéu, como “Manhãs de Setembro”, e o mesmo ocorre com a comédia escrita por Dani Valente e Mina Nercessian. Assim, a capital uruguaia faz as vezes do Rio de Janeiro, da Barra da Tijuca, para ser mais específico, na trama, uma história universal, mas, ao mesmo tempo, cheia de brasilidades.
“Desjuntados” é a história de um casal, ou, melhor, de um ex-casal. Camila (Letícia Lima) e Caco (Gabriel Godoy) tiveram uma ascensão social rápida, de um casal da Tijuca aos grandiosos condomínios da Barra da Tijuca. O problema é que ele, um engenheiro químico, foi demitido e nem sequer recebeu a rescisão, o que fez com que a renda da casa dependesse totalmente do trabalho de Camila como vendedora produtos de beleza num esquema multi-nível.
Para piorar, o casal enfrenta uma crise e decide pelo divórcio, mas ninguém tem condições de se sustentar por conta própria. A solução, então, é tentar dar um jeito de pagar as dívidas e vender o apartamento, ou de vender o apartamento para pagar as contas - a dívida do casal é uma espiral e há poucas soluções aparentes para ela.
O texto de Valente e Nercessian é certeiro ao dar espaço para os atores, uma característica talvez vinda do fato de ambas serem atrizes. Letícia Lima e Gabriel Godoy são ótimos como um casal em crise/separação, com uma química em tela que deixa transparecer as cicatrizes e os rancores do fim do relacionamento, mas que também deixa claro o carinho existente por duas pessoas que passaram tanto tempo juntas em um relacionamento outrora cheio de amor. Em alguns flashbacks (o inicial é ótimo), a série nos mostra como os dois se conheceram e se casaram, o que cria uma identificação ainda mais próxima do público com aqueles personagens.
Série
Letícia Lima e Gabriel Godoy em "Desjuntados" Crédito: Amazon Prime Video/Divulgação
Em apenas sete episódios de cerca de 25 minutos, “Desjuntados” usa bem os clichês da comédia romântica para gerar um conforto e entregar uma sensação de segurança ao espectador, mas também é uma série que ousa em alguns arcos. Não há um grande vilão ou comportamentos vilanizados - o Roberto Carlos de Rômulo Arantes Neto, por exemplo, poderia se tornar um antagonista para Caco, mas o texto os leva por outros caminhos.
É interessante quando esse conforto é “confrontado” por um humor nem sempre tão confortável assim, principalmente nas sequências de Caco. Gabriel Godoy aproveita as situações do texto para entregar uma boa dose de humor de constrangimento - a sequência da dinâmica de grupo é excelente.
Série
Letícia Lima e Gabriel Godoy em "Desjuntados" Crédito: Amazon Prime Video/Divulgação
“Desjuntados” é uma série surpreendentemente elegante, algo que não se espera de uma produção do gênero, com uma ótima direção de arte de Cláudia Andrade e a impecável trilha sonora dos irmãos Gui e Rica Amabis. Essa característica dá à série um ar elegante. Vale destacar também toda a “história” dos interlúdios que separam algumas sequências, mostrando que há vida nos grandes condomínios além das de seus ricos condôminos.
Com uma narrativa curta e até um pouco episódica, a série se concentra muito em seu arco principal e deixa possíveis boas histórias de lado. Assim, a trama do casal de vizinhos Ana (Letícia Isnard) e Guilherme (Marcelo Laham) é superficial. Da mesma forma, a série deixa de explorar um possível conflito com Roberto Carlos e Camila - a situação movimenta uma parte do texto dele, mas o outro lado é ignorado de forma simplista e irreal.
Série
Letícia Lima e Gabriel Godoy em "Desjuntados" Crédito: Amazon Prime Video/Divulgação
Com um elenco enxuto devido à pandemia, “Desjuntados” também é uma série um pouco humanamente esvaziada, o que não chega a ser um problema e até confere um charme e ela, mas também pode passar uma sensação de artificialidade. Além dos personagens já citados, há Paty (Danni Suzuki) e Marcinho (Yuri Marçal), que têm certo destaque, e alguns outros que aparecem pontualmente, como os pais de Caco, Joana (Virginia Cavendish) e Jandira (Solange Teixeira); todos com suas funções bem definidas na trama, sejam elas cômicas, ou sejam elas de movimentação de roteiro.
“Desjuntados” é uma série que surpreende e agrada por entregar o que o público espera dela, mas não necessariamente da forma como o público espera. Alternando humor físico com piadas que nem sequer fazem graça (mas funcionam), o texto de Dani Valente e Mina Nercessian encontra na sua dupla de protagonistas os intérpretes ideais capazes para uma história de separação cheia de cicatrizes, afeto e consideração.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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