Desde quando ouvimos falar que Hollywood vive uma crise criativa? Cada vez mais os cinemas (lembra deles?) são entupidos de remakes, continuações, adaptações de livros e quadrinhos, etc. Em 2019, dos 20 filmes de maior bilheteria nos EUA, apenas dois eram originais, “Nós”, de Jordan Peele, e “Era uma Vez… Em Hollywood”, de Quentin Tarantino - e isso não foi uma novidade, visto que em 2018 apenas “Um Lugar Silencioso”, de John Kraskinski, e “Podres de Rico”, de Jon M. Chu, figuraram na mesma lista. Este ano, completamente atípico, tem “Eight Hundred” no topo e “Tenet” em terceiro na bilheteria mundial, mas como a maioria dos blockbusters foi adiada pro ano que vem, não dá para utilizar 2020 como parâmetro.
Com a ascensão dos materiais não originais no cinema, a televisão se tornou um refúgio para a criatividade, um lugar em que novas histórias ganhavam forma mesmo quando derivadas de outros produtos. Sucessos como “Game of Thrones” e “The Walking Dead” vieram da literatura e das histórias em quadrinho, respectivamente, mas ganharam vida própria na TV que, ironicamente, ganhou essa força a partir dos anos 2000 com histórias originais como “Os Sopranos”, “The Wire”, “Breaking Bad”, “Six Feet Under”, “Lost” e por aí vai…
O problema é que à medida que a TV foi se tornando não mais um refugo para atores e diretores de segundo escalão, mas sim um espaço de liberdade criativa e grandes investimentos, a mesma praga que assolou a indústria do cinema bateu à porta: a necessidade de um produto seguro e confortável para o público. Assim, para cada original como “Raised by Wolves”, “Devs”, “Ozark” ou “Marvelous Mrs. Maisel”, há, por exemplo, uma nova série do universo expandido Marvel em produção, uma notícia sobre um prequel de “Game of Thrones” ou mais uma série derivada de “The Walking Dead”.
Sim, amigos, “The Walking Dead”, aquela série que você abandonou lá pela quinta ou sexta temporada, ainda é uma força na indústria mesmo perdendo audiência a cada ano - para ser justo, a 10ª temporada, atualmente em exibição, é bem interessante. É bem possível que a série tenha um fim digno na 11ª e última temporada, mas duvido que alguém vá se interessar em tirar o atraso de temporadas apenas para acompanhar a conclusão da história.
Talvez seja até bom colocar umas aspas no já citado “fim”, porque o que o canal AMC (produtor da série) quer é extrair até a última gota da história criada - e já encerrada - por Robert Kirkman nos quadrinhos. O primeiro derivado (ou spin-off, como preferir) foi “Fear the Walking Dead”, cuja sexta temporada tem início neste domingo (11) e as cinco primeiras estão disponíveis no Amazon Prime Video.
Na semana passada, o canal AMC lançou “The Walking Dead: World Beyond”, mais um derivado. A série prometeu uma pegada diferente das outras do universo de zumbis; a ideia era algo mais jovem, que apresentasse ao espectador uma outra visão daquele mundo. O episódio piloto, que foi ao ar na última segunda, começa interessante, mostrando uma comunidade bem estruturada, dez anos após o apocalipse zumbi, e os primeiros adolescentes que cresceram nessa comunidade e não tem muita noção do que acontece no mundo fora da comunidade.
Há atrativos quando passeamos pela comunidade e entendemos sua estrutura e até uma hierarquização de comunidades, com a República Cívica funcionando como uma líder de comunidades, mas a série, pelo menos em seus dois primeiros episódios, não parece seguir este caminho. Logo após uma breve introdução, tudo volta ao padrão “The Walking Dead”, mas dessa vez sob o olhar de um grupo de pós-adolescentes sem nenhum preparo para o mundo exterior.
A notícia boa é que a série promete ter apenas duas temporadas e amarrar as pontas entre “The Walking Dead” e “Fear the Walking Dead”. A notícia ruim é que ela está longe de ser o último produto desse universo - o AMC já confirmou uma nova série protagonizada por Carol e Darryl, algo no estilo faroeste, samurai… Há também o projeto "Tales of the Walking Dead", uma antologia de histórias diferentes no mundo zumbi (o que pode até ser interessante). Ah… já ia me esquecendo, há ainda os filmes que serão protagonizados por Rick Grimes (Andrew Lincoln) e Michonne (Danai Gurira), que já abandonaram a trama da série principal há algum tempo.
Esse fenômeno de poucas tramas originais acaba sendo um casamento quase monogâmico entre audiência e produtores: o público busca conforto, histórias com as quais já têm alguma similaridade, já os estúdios buscam diminuir os riscos de um investimento furado - vale mais a pena investir em um derivado de “Game of Thrones”, que vai nascer com um público já cativo, ou em uma nova série de fantasia medieval cara e arriscada?
Uma cultura global também é parte do problema. Filmes e séries de qualquer nacionalidade hoje chegam aos quatro cantos do mundo - a Netflix, por exemplo, chega a quase 200 países. Os filmes se tornaram mais caros e hoje dependem do mercado global para sobreviver - obras do conglomerado Disney precisam fazer sucesso na Ásia e na América Latina, então se afastam de qualquer conteúdo mais autoral de uma ou outra região; quem vai investir US$ 100 milhões (valor até modesto para um blockbuster) em uma história que ninguém conhece, de onde virá esse retorno?
A preocupação é: se as séries não forem mais uma saída para a produção autoral, estaremos relegados sempre a heróis, carros velozes, zumbis, dragões e remakes live action de clássicos da animação? O problema existe, e pior ainda mais quando percebemos que somos parte dele.