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Crítica

"Alba": série espanhola da Netflix é melodramática e poderosa

Remake do sucesso turco "Fatmagul", "Alba" acompanha a luta de uma vítima de estupro para responsabilizar os criminosos em uma sociedade que insiste em culpá-la

Publicado em 18 de Julho de 2022 às 18:43

Públicado em 

18 jul 2022 às 18:43
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

Série espanhola
Série espanhola "Alba", remake da novela turca "Fatmagul" Crédito: Netflix/Divulgação
Só em 2021, o Brasil registrou 56.098 casos de estupro, o equivalente a um estupro registrado a cada 10 minutos no país fora a enorme subnotificação causada por mulheres com medo ou vergonha de expor o ocorrido. Casos como o da influencer Mariana Ferrer, violentada sexualmente por um homem rico e influente e judicialmente por um julgamento em que foi humilhada e desrespeitada, quase transformada em culpada por ter sido violentada, não estimulam a denúncia. Os dados são brasileiros, mas o problema é global.
“Alba”, série espanhola lançada pela Netflix, adapta o sucesso turco “Fatmagul”, exibido como novela pela Band e agora disponível no Globoplay. O roteiro traz a personagem título (Elena Rivera) que retorna à cidade-natal para um feriado e acaba violentada pelos amigos de seu namorado. Alba acorda nua a machucada em uma praia, sem se lembrar de nada, mas com a certeza de ter sido violentada, mas, ao invés de ser acolhida, ela vira motivo de desconfiança e é acusada de querer desestabilizar os jovens de boas famílias, todos cidadãos de bem, acusados do crime.
A série tem início com a imagem de Alba na praia. Logo após, reconta, em flashbacks, o ocorrido nas 24 horas que antecedem aquele momento. A protagonista é construída como uma mulher segura de si e disposta a viver sem medo, uma jovem de espírito livre que incomoda algumas pessoas; “não foi nada que ela não tenha pedido”, diz um dos acusados, que nem chegam a ser incomodados pela polícia.
É interessante como a série constrói o pós-crime, reforçando todo o trauma causado a Alba em contraposição à maneira como os culpados continuam vivendo suas vidas sem grandes preocupações. “Alba” é muito eficiente ao trabalhar a dor da sobrevivente e o sentimento de culpa imposto a ela pela sociedade. Todo o processo de investigação, que fazia Alba reviver várias vezes os detalhes daquela noite, passando pelas perguntas que a tentavam convencer de que as relações (sim, são várias) foram consensuais… “Alba” não é uma série de fácil consumo.
Série espanhola
Série espanhola "Alba", remake da novela turca "Fatmagul" Crédito: Netflix/Divulgação
“Alba” é um melodrama que busca manipular os sentimentos do espectador; somos conduzidos a obviamente nos identificar com a protagonista, mas também a sentir repulsa por outros personagens e indignação com a situação construída. Bem dirigida, com boas atuações e um roteiro amarradinho, com algumas viradas muito boas, a série cumpre seu papel. Os personagens são bem construídos, raramente unidimensionais, ajudando também nas subtramas espalhadas pelos 13 episódios da série.
Em contrapartida, o excesso de melodrama às vezes incomoda, tirando a força de alguns momentos mais impactantes. Da mesma forma, os 13 episódios poderiam ser perfeitamente resumidos a oito ou no máximo 10, potencializando personagens ao invés de repetir situações (o arco de Ruben, por exemplo), ou simplesmente eliminando arcos como o do pai de Hugo.
Série espanhola
Série espanhola "Alba", remake da novela turca "Fatmagul" Crédito: Netflix/Divulgação
A narrativa da série é esperta ao construir o quebra-cabeças com idas e vindas no tempo, revelando surpresas e novas perspectivas para os acontecimentos. “Alba” também acerta ao não tentar amenizar comportamentos ou relativizar situações - a culpa está ali e o texto jamais tenta fazer com que o espectador tenha outro olhar sobre ela, nunca criando arcos de “será mesmo que eles são culpados?”.
“Alba” é uma série forte e que não alivia seu discurso. O texto usa uma linguagem acessiva, o melodrama com influência novelesca, para reforçar o peso de sua trama. Lidando com corrupção, privilégios sociais e financeiros, a série traz um problema global ao lidar com a falta de preparo das autoridades e da sociedade mundo afora para lidar com os assustadores casos de estupro.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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