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Crônica

Zagallo: o amor na ponta das chuteiras

A Seleção era escalada pelo melhor técnico e com certeza a influência das torcidas apaixonadas dentre os jogadores do Rio, São Paulo e Belo Horizonte

Publicado em 09 de Janeiro de 2024 às 01:20

Públicado em 

09 jan 2024 às 01:20
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates Paulo Bonates
Gilmar, De Sordi e Bellini; Zito, Orlando e Nilton Santos. Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagallo. Naquele tempo, qualquer criança sabia de cor - cor de coração - a escalação da Seleção Brasileira de futebol.
A transmissão pela televisão, logo que chegou, era conhecida como mancha negra dada à imagem quase imperceptível. Então, o rádio, a conversa fiada e as revistas esportivas encarregavam-se da divulgação, assim como os locutores especializados.
Os clubes de esquina - cada um com suas cores - eram palco dos grandes embates teóricos. Éramos adolescentes e ninguém morria.
Não havia essas frenéticas vendas e compras de jogadores para fora do país, era proibido. Então, os torneios dentro do Brasil, os interestaduais eram vitrines do que havia de melhor.
A Seleção era escalada pelo melhor técnico e com certeza a influência das torcidas apaixonadas dentre os jogadores do Rio, São Paulo e Belo Horizonte. E, às vezes, um ou outro jogador de time fora desse triângulo.
Então, quem não conhecia o chute “Folha Seca” do Didi que fazia a bola realizar piruetas no ar antes de entrar. Gerson, o “Canhotinha de Ouro”, Rivelino, o “Patada Atômica”, Tostão, o “Gênio Mineiro”, Garrincha, o artista do drible e do chute de trivela e Ademir da Guia, só para resumir.
Como os grandes campeonatos eram realizados dentro do país, o entrosamento entre eles era maior e mais eficiente do que os trazidos de fora a cada convocação para a Copa do Mundo.
Depois o vil metal se encarregou de dolarizar quem quisesse e transformou tudo em dinheiro. Jogadores medíocres eram e são negociados a peso de ouro para fora do país. E outras milongas mais.
Quando aparece um diferenciado - caso do Neymar - os milhões de dólares tomam conta das escalações e o talento aqui e alhures vai para o espaço. Acabam com o jogador.
A sempre maravilhosa torcida brasileira, que vem do povo, ainda está salvando o esporte bretão. Mas sem alegria, e muito, mas muito ódio mesmo. Violência são espetáculos bizarros nos estádios de hoje.
Zagallo
Zagallo Crédito: Lucas Figueiredo/CBF
Quase não há o principal campo de treinamento do país: os quintais dos morros e pés descalços com as manobras circenses em verde e amarelo.
Mas de repente, não mais que de repente, a alma nacional renasce aqui e ali.
Zagallo não morreu e é America do Rio. Pelé nem precisa falar.
Dorian Gray, meu cachorro vira-lata, torce pelo América do Rio até hoje.

Paulo Bonates

Paulo Bonates Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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