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É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio. Escreve às terças

Um pouco sobre os retratos vivos da minha parede

As paredes de onde trabalho ou moro são sempre tomadas por quadros

Publicado em 27/07/2021 às 02h00
Parede com quadros
Enquanto o talentoso faz-tudo do Centro da Praia martela uma porta para consertar uma fechadura no consultório, olho em volta procurando um lugar para fixar os retratos na parede. Crédito: rawpixel.com/Freepik

Mexendo e remexendo os guardados anônimos encontrei, semana passada, uma histórica foto na sala onde minha querida mestra, amiga e orientadora, Inaura Carneiro Leão, supervisionava candidatos a psicanalista e fazia um chá cuja magia me credencia até hoje a tentar entender o outro. Nem sei se consigo.

Foi uma rara foto dela, eu, e outra pessoa no plano visual que não aparece no flagrante e consigo me lembrar quem era. Poderia ser o Otávio, o Henrique, o Júlio. Doutora Inaura era linda com seus olhos azuis e uma calma penetrante. Me faz muita falta, e a inteligência psicanalítica que considero inteligente.

Ontem, mandei fazer uma moldura do retrato dessa cena em uma empresa especializada em finos acabamentos, na Rua Eugenio Neto. E aproveitei para emoldurar o meu certificado como membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores.

Ela e eu entramos juntos na instituição. Inaura disse que gostava do meu texto. Bem feito, quem mandou ser generosa, agora acho que escrevo bem. Até sua morte precoce fomos a algumas reuniões na Avenida Mem de Sá, 197, na Tijuca. Fomos aceitos membros titulares da Sociedade. Imaginem: euzinho no mesmo nível da referência mundial em psicanálise, Dra. Inaura, coleguinhas. Desculpem.

Neste exato momento, enquanto o talentoso faz-tudo do Centro da Praia martela uma porta para consertar uma fechadura no consultório, olho em volta procurando um lugar para fixar os retratos na parede. Nosso e do certificado. Como já disse, as minhas paredes estão cheias de artes

Olho em volta e a próxima tarefa é achar um lugar que mereça compartilhar esses retratos com os demais. As duas molduras, com paspatur coloridos escolhidos na oficina de artes com muito cuidado, fazem jus ao quadro. As paredes de onde trabalho ou moro são sempre tomadas por quadros.

Vislumbro neste instante um campeão de elogios. Trata-se de um retrato feito por Jorge Luiz Sagrilo, amigo de muito tempo. A modelo nunca cheguei a conhecer, mas estava posando linda para a foto. Aproximei-me e estava lá com discreta identificação: “Mila Dutra, portfólio 25-18, a assinatura do Sagrilo e a data, 1984”. Passou-se.

Na parede da esquerda de quem entra, um “Francisco” de João Martins, o João Ninguém segundo gostava de ser chamado. Ao lado, um óleo sobre tela do Wagner Veiga, retratando um ancião bem vestido, apinhado de muletas e dezenas de medalhas. Há uns vinte anos deixou comigo para que guardasse na parede do consultório. Nunca veio buscar e eu aproveito para comunicar que jamais devolverei.

Do lado direito paira uma cozinha desenhada a bico de pena, um desenho em preto e branco de dar fome. Passados tantos anos, outras matizes compartilham o ambiente. A arte, seja qual for, estará sempre em movimento. Abaixo, um desenho a crayon, acho, ilustrando São Paulo, o santo presenteado a mim por Delton Souza.

Um desenho de minha linda avó Alice, com roupa de gala e seu perfil encantador, toma conta da parede da sala de espera do consultório. Woody Allen me espreita emoldurado por madeira crua. O gênio com cara de besta (vade retro inveja maldita).

Bem à minha frente, um rádio Philips, de 1950, herança de papai. Ainda tocando a válvula. Acima, um trabalho de Sebastião Salgado, como sabem, uma pérola enfocando a dor dos miseráveis.

Esse pandemônio aproxima e dá vida a quem tem. Abre sem querer outros espaços nunca dantes navegados. O ser humano não perece porque tem alma que se fixa no corpo vivo ou morto.

Tirado por Paulo Makoto, quando o Diário completava 17 anos, um flagrante de cima para baixo do locutor que vos fala. Até que estou bem, modéstia às favas.

Uma cadeira de balanço paira na sala.

O inevitável “Guernica”, de Pablo Picasso, diz quase tudo do massacre à cidade espanhola nos tempos de Franco, Hitler e Mussolini, e domina a parede da esquerda de quem vai. Isso, mesmo sendo outro assunto parecido, hei de lembrá-los de que nosso Brasil varonil, até onde pode na terrível época de Getúlio Vargas, bem que curtiu o nazifascismo.

Isso são outros quinhentos.

Dorian Gray, meu cão vira-lata, faz pose.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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