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Médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio

Se algo precioso se perdeu nestes tempos, foi o humor

Mesmo tendo passado a infância entre religiosos, jamais deixaria de evoluir com a maldade e o humor inteligente e sério

Publicado em 16/08/2018 às 18h03
Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o Barão de Itararé. Crédito: Arquivo AG
Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o Barão de Itararé. Crédito: Arquivo AG

Paulo Bonates*

Se algo precioso se perdeu neste tempo em que a população deveria votar de verdade, e os poderes representassem as necessidades reais, isto foi humor. Talvez o mais reconhecido líder cantado em discursos e músicas de carnaval, pasmem, Getúlio Vargas era amigo, carne e unha de Aparício Torelly, o autoproclamado Barão de Itararé. Herói da histórica Batalha de Itararé, que como se sabe nunca existiu. Embora amigos íntimos, obrigou Getúlio a prendê-lo.

Parodiando um dos mais populares jornais da época - “A Manhã” - editou clandestinamente o seu próprio, tirando o til: “A Manha”. Em uma das vezes em que a implacável polícia política de Vargas, tipo Guarda Nacional, invadiu a redação do jornaleco com força, tendo ele próprio levado algumas bordoadas, dourou mais ainda sua criatividade. Longe de fechar o matutino, como fora ordenado, apenas acrescentou uma advertência pregada na única portinhola do pasquim: “Entre Sem Bater”.

Eram ambos, Getúlio e o Barão, irônicos, e, dizem, trocavam ideias. Imagine a senhora este fato nos Estados Unidos, que também teve seu gênio, Groucho Marx.

Foi com dispêndios e manhas, e uma vocação natural para se meter em confusão, e sendo amigo de Getúlio – o que era quase a mesma coisa -, que marcou sua presença por 50 anos, isto é, até o golpe militar de 1964

Já pensaram se Grouxo nos anos 30 tivesse seu próprio jornal e fizesse o que sempre fez: debochar de literatos pretensiosos, ridicularizar magnatas de todas as áreas, atormentar presidentes. Aparício, o barão nacional, fez tudo isso e mais um pouco.

Enfrentou os anos sombrios da chamada Era Vargas, que aplicava golpes de Estado nela mesmo. Pois o Barão confundiu a vida e a arte naturalmente, sendo seu próprio herói, protagonizou histórias que se incorporaram ao folclore político verde e amarelo.

Mesmo tendo passado a infância entre religiosos, jamais deixaria de evoluir com a maldade e o humor inteligente e sério. Queria ser médico, nunca foi. Na verdade, usava as letras e o jornalismo para exercitar sua vocação: “Sei que pareço um ladrão, mas muita gente que eu conheço, que não parecendo o que sou, é aquilo que eu pareço”.

Adotando um peculiar, por assim dizer, marxismo, elegeu-se vereador pelo Rio de Janeiro, em 1947, em singular campanha. Vigiado sem cerimônia pela polícia do Estado, juntou-se nos bares da Lapa com figuras como Villa Lobos e Candido Portinari. Fiel companheiro de cela de Graciliano Ramos, era odiado por Ary Barroso na Câmara dos Vereadores.

Foi com dispêndios e manhas, e uma vocação natural para se meter em confusão, e sendo amigo de Getúlio – o que era quase a mesma coisa -, que marcou sua presença por 50 anos, isto é, até o golpe militar de 1964.

*O autor é médico psiquiatra, psicanalista e jornalista

 

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