Ando a lembrar e relembrar coisas, e muitas delas repletas de saudade. A tal da saudade.
Dizem os entendidos cheios de razões que a palavra “saudade” pertence à língua portuguesa, a única entre as línguas da Terra com tanta riqueza e precisão de significantes e significados. Portanto, não possui sinônimo. Ninguém tem saudade igual a gente. Será?
Neste momento em que escrevo, tento memorizar e, se possível, ter saudade, incentivado por essa ou aquela palavra ou qualquer coisa. Como se fosse um exercício.
Todos nós, os foliões, podemos sonhar e lembrar ao recordar por tempo indeterminado. O sonho é muito mais alcançado que a realidade, e não a impede. O tempo que se leva não acompanha, mas isso é outra história.
A senhora vai dar licença, mas como exercício vou tentar aqui e agora jogar a atenção para uma lembrança, canto ou encanto qualquer. Fecho os olhos e ponho-me a prestar a atenção no que surgir nessa nuvem, digamos.
Vejo uma daquelas carrocinhas de sorvete. Salivo. Fixei o desejo no Eskibon. Lembrei, cheguei a sentir o perfume e a sensação do chocolate gelado. Era um dos mais caros. Apareceu o Jajá, picolé de maracujá. Sinto cheiro da Praia de Copacabana e fixo-me nas pernas da Maria Glória, minha prima linda que morreu sem me dar bola. Surge a Eneida, vestida toda prosa com o uniforme da Escola Normal.
Tenho que descansar um pouco. As lembranças e as saudades são, tenho certeza, independentes do desejo ou sequer influenciadas por algo inventado, chamado realidade, a realidade self-objetal, por exemplo.
Então.
Acabo de ver o gol do Amarildo na Copa do Chile. Na minha cabeça foi um chute direto desferido da marca do corner do lado esquerdo de quem ataca. Senhoras e senhores, isso de especular sonho cansa o inconsciente.
Ter delírios por conta própria é muita responsabilidade. Aliás, é loucura.
Fiz um café. Vou à varanda, sinto saudade do Bar Miramar na orla da Praia do Canto. Adorava passar por lá e ver a turma do time de futebol de salão do Praia Tênis, titulares.
Lembro de um goleiro sensacional, o Ronald Rubim, mandando seu chope. Era goleiro da seleção capixaba e uma pessoa sensacional. Que inveja me dava daquele grupo.
Respeitável público, essas elucubrações mágicas não respeitam tempo. Em todos os sentidos. Acho que vou fazer chover na imaginação, neste momento. Mas a lembrança ou a saudade não me respeitam e não me pertencem, nem a nenhum dono.
De repente, estou no bonde de Ipanema, via Nossa Senhora de Copacabana. Para onde estou indo? O que aparece no letreiro da minha cuca feliz é a Pracinha do Meyer onde morava minha avó Waldebrandina Normando.
Estou cansado. Não se pode sair sonhando, sentindo saudade, sendo feliz, recuperando e perdendo obscuros objetos de desejo impunemente. Vou parar um pouco.
Fui e voltei para continuar. Havia assistido, aliás duas vezes, a uma entrevista do Edu Lobo, gordinho à beça. Restitui o ídolo e suas músicas. Lembrei e dedilhei “Pra Dizer Adeus”, que Lauro Sergio me ensinou na faculdade. Edu explicou como elaborava suas composições. Prestei atenção, vou no mesmo rumo.
Nem sempre os desejos e os sonhos, essas coisas, são impossíveis. Aliás quase nunca.
E vou eu à deriva de um desejo mágico: pensar, cantar, chorar.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, acha que jamais conseguirei sonhar com a minha verdadeira rainha da imaginação, a Sophia Loren.