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Crônica

Nascer é entrar na avenida sambando e tendo que aprender o samba-enredo

Respeitável público, não esqueça. A fantasia que cobre o corpo, as máscaras, tudo escolhido livremente no carnaval ou não, é a sua verdadeira identidade

Publicado em 20 de Fevereiro de 2024 às 02:00

Públicado em 

20 fev 2024 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Queridos e tolerantes leitores, agora que só os vejo a cada quinzena através dessas mal traçadas linhas, me dou conta da relação afetiva que envolve o leitor e o escritor. O rosto é a máscara carnavalesca. Você é a fantasia que escolheu em todos os sentidos.
Lidar com a eternidade das linhas traçadas para aqueles que leem com atenção amorosa é tornar suas as minhas palavras por segundos que sejam ou internalizar para o sempre aquilo que paira entre nós.
Nos meus duros anos brincando seriamente como psiquiatra, psicanalista e jornalista, inventando projetos para o Outro, recebi na formação profissional, especialmente com Julio de Mello Filho e Inaura Carneiro Leão, além dos colegas com quem troquei experiências, como professores, alunos, supervisores de pós-graduação, amigos músicos e de fé e de coração todos os meus clientes, fui feliz.
Então.
Aprendi, creio eu, a colocar-me no lugar do outro e que a palavra só se completa com a audição de quem escuta e vê além de si. Benditas as medicações, a maioria descoberta pelo amor entre médico e paciente, mas nada substitui a vontade e a disposição de um lado e de outro. Não há terapia sem profundo consentimento e percepção afetiva. Acho.
A verdadeira força reside na experiência da pessoa, no processo de desenvolvimento que flui por caminhos naturais. A saúde mental do indivíduo é construída desde o início pela mãe que provê o “ambiente facilitador”.
A escola inglesa nomeia assim os processos de crescimento natural do bebê para que as interações com o ambiente possam evoluir de acordo com o padrão herdado pelo indivíduo. A mãe está – sem saber – lançando os alicerces da saúde mental de quem nasce. O médico deve ter essa consciência - no meu entender. Ou deve fazer sabendo que alguma criança, ou parte dela, sempre se esconde na dor de quem o procura.
Portanto, a prática da terapia psicanalítica, seja de que raiz for, deve ser capaz de escutar o recado natural que o bebê traz ao mundo, pela fala e demais modos e maneiras de comunicação. Esse bebê – saibam – não cresce nunca. Alguns duram até a morte, independentemente da idade.
A vontade será, portanto, a organização dos desejos e via de necessidade do bebê até o fim. A linguagem adquirida visa tornar possível a comunicação, no gesto, no escutar, no falar, em toda interação original e criativa. O saber é fundamental para um médico psicoterapeuta, mas o perceber e o acalmar é o mais importante.
Banho de Mar à Fantasia de Manguinhos
Banho de Mar à Fantasia de Manguinhos Crédito: Ricardo Medeiros
Na semana do carnaval fui ao tradicional “Geraldão”, um restaurante recuperador de afeto, em Manguinhos. Pescador de amor como eu. como ocorre anualmente, encontrei todo mundo. Estava devidamente equipado com um cavaco e pandeiro.
Para não dar vexame, pintei de batom meus lábios, de vermelho cintilante, coloquei glitter no rosto, e vesti, como faço anualmente, a camisa vermelha do América da Tijuca.
Quanta gente boa de dezenas de anos na categoria capixaba legítimo e aderente como eu apareceu e me abraçou. Além da camiseta do time do Lamartine Babo, descobri que dezenas de pessoas tinham uma relação de cumplicidade com o América, muitas vezes histórica. Alguns chegaram a cantar comigo o hino do clube no rufar dos tambores.
Em priscas eras, o Rubro tinha muitos torcedores na Ilha Delícia, como a chamava Carmélia Maria de Souza.
Eram “verdadeiros selfs”, a primeira condição para a saúde mental. Mais conhecido como ser você mesmo, sempre.
Respeitável público, não esqueça. A fantasia que cobre o corpo, as máscaras, tudo escolhido livremente no carnaval ou não, é a sua verdadeira identidade. É a cara que se quer ter lá no fundo da alma. Preste atenção.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, saiu cantando tralalá, lá lá lá.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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